E se o Livro do Desassossego tivesse sido escrito não por uma mas por três pessoas? A surpreendente teoria é defendida pela catedrática de Literatura Teresa Rita Lopes, que esta quinta-feira apresenta em Lisboa uma obra sobre um dos livros maiores da literatura portuguesa na qual defende que o livro de Bernardo Soares, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, corresponde na realidade a três monólogos.

“No plural? – Será a primeira surpresa [sobre a obra]. É verdade: o ‘Livro [do Desassossego]’ é três livros, assinados por três autores, perfeitamente diferenciados: o primeiro, por Fernando Pessoa que, a certa altura, nomeou Vicente Guedes seu representante, o segundo, pelo Barão de Teive, e o terceiro, por Bernardo Soares”, explicou a autora de ‘Livro(s) do desassossego’ à agência Lusa.

Para Teresa Rita Lopes, trata-se de restituir os três monólogos aos seus verdadeiros criadores, “num gesto que resgata as intenções de Pessoa”. Os três autores seriam, então, o jovem artista Vicente Guedes, decadente, ‘dandy’ e ‘blasé’; o frio Barão de Teive, “dono de uma surpreendente austeridade de pensamento e de linguagem”; e Bernardo Soares, que, “apesar de ser um simples ajudante de guarda-livros da Baixa lisboeta, se tornou o semi-heterónimo pessoano mais conhecido e reconhecido, desde que se manifestou pela primeira vez, em 1929″, reforçou à Lusa fonte da Global Editora, que chancela a obra.

Casa Fernando Pessoa | At: EGEAC
Casa Fernando Pessoa | At: EGEAC

“Apresentar os escritos de Vicente Guedes como se tivessem saído da pena de Bernardo Soares – equívoco em que caem várias edições anteriores desta obra – equivale a confundir as falas de diferentes atores e a criar uma cacofonia literária”, acrescentou a mesma fonte editorial.

A obra ‘Livro(s) do desassossego’ é apresentada esta quinta-feira, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, em forma de conversa entre a autora e o poeta e crítico literário António Cortez.

Além de catedrática de Literatura, Teresa Rita Lopes é ainda poetisa, dramaturga, investigadora literária e ensaísta, tendo obtido diversas distinções, nomeadamente o Prémio Cidade de Lisboa (1988), o Prémio Eça de Queiroz (1997), o Prémio Pen Club (1990) e o Grande Prémio de Ensaio UNICER/Letras e Letras (1989).

A autora nasceu em Faro, mas durante o Estado Novo decidiu radicar-se em Paris, onde foi professora na Universidade da Sorbonne Nouvelle, entre 1969 e 1982. Após o 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal, tendo participado na fundação da Universidade Nova de Lisboa, onde desde 1979 leciona Literaturas Comparadas.

Teresa Rita Lopes colabora regularmente em diversos jornais e revistas nacionais e internacionais e é a apontada como uma das especialistas de Fernando Pessoa, tendo publicado vários escritos inéditos do poeta e coorganizado edições críticas da sua obra.