Café Santa Cruz, Coimbra Fotografia: Jorge Simões | Rota dos Cafés com História

Cinco de maio de 1923. O país vive a ditadura e o pós-guerra. Os loucos anos 20 ainda não chegaram, mas em Coimbra os jornais provocam uma pequena agitação. Abriu portas o Café-Restaurante de Santa Cruz!

A polémica parece ultrapassada. A campanha contra a reconversão da antiga igreja de S. João ainda está na memória, mas a novidade impõe-se. “Vão ali ver a restauração que se fez que tanto condenaram essa obra, e que digam em sua consciência se não é bem melhor o que lá está agora do que o que lá estava depois da igreja profanada”, escreve a Gazeta de Coimbra nesse dia.

O repto explica-se pelo abandono a que foi votado o templo, quando serviu de esquadra de polícia, depósito de materiais de canalização, estação de bombeiros e agência funerária. “Podem orgulhar-se os conimbricenses de possuir o melhor Café-Restaurante do país”, sentencia o periódico. A inauguração oficial acontece a 8 de maio, nome da praça onde se situa o café. Uma festa com o “maior brilho e animação”, onde estiveram figuras ilustres da cidade, obsequiadas por um “profuso e distinto serviço de bolos e vinhos”, nota o autor, sempre elogioso, antecipando a afluência ao novo estabelecimento da “melhor sociedade citadina”. Não se enganou. Duas semanas depois, A Notícia garante que “vão ali as mais distintas senhoras desta terra, fazer o seu almoço ou jantar, notando-se ali também uma superior distinção”. Não parece haver razão para novos protestos. Afinal, o novo estabelecimento “em nada veio prejudicar a arte do monumento de Santa Cruz nem desrespeitar os sentimentos religiosos de cada um”, destaca a publicação, que não deixa de aplaudir o interior com as suas abóbodas “postas carinhosamente a descoberto”.

Vítor Marques é o gerente deste café cujas raízes remontam a 1530. Foi dele a ideia de criar a Rota dos Cafés com História de Portugal, apresentada em abril de 2014. “Pretende-se com este trabalho evidenciar que os cafés têm um património cultural forte, de longos anos, que atravessam uma série de momentos da história de Portugal”, explica.

O objetivo é que o turista, quando visita a cidade de um desses cafés, possa conhecer não apenas o património edificado mas também o património imaterial guardado naqueles espaços. Vítor Marques quer que os cafés mexam com a cidade, em especial com aquelas zonas que estão a perder visitantes. Em cima da mesa estão eventuais parcerias com agentes económicos, culturais ou turísticos. A Madeira e os Açores estão fora da rota, mas também aí o responsável já identificou alguns cafés com história. Para já, são 23 estabelecimentos, mas no futuro hão de ser mais. O próximo passo é a produção de um livro em versão offset com as principais informações sobre estes cafés.

1. Tecto de Mercúrio, Guimarães

Fotografia: Jorge Simões | Rota dos Cafés com História

Um fresco de 1903 dá nome à casa, que se apresenta como um “espaço alternativo” no centro histórico da cidade-berço. A política é “não dizer que não ao cliente”, se ele pede cocktails e gins. Um espaço de convívio com muita música e boa comida, que tem uma área dedicada aos apreciadores de sushi tradicional.

2. Pastelaria Versailles, Lisboa

Fotografia: Jorge Simões | Rota dos Cafés com História

Tem o nome do célebre palácio francês, e poderia muito bem ser uma das suas salas. Nasceu em 1922 mas o seu interior parece mais antigo. A decoração de espelhos, vidro e detalhes art nouveau cria o ambiente de um verdadeiro café histórico europeu. O seu fundador, Salvador Antunes, um português com formação em pastelaria francesa, era um apaixonado por este estilo arquitetónico.

3. Pastelaria Gomes, Vila Real

Fotografia: Jorge Simões | Rota dos Cafés com História

Mais uma pastelaria, esta criada por Manuel dos Santos Gomes em 1925. A sua mulher, Maria da Conceição, tinha jeito para a cozinha e combinou na perfeição o receituário conventual com fórmulas tradicionais. Esse continua a ser o ingrediente do sucesso. A especialidade da casa é o covilhete, ícone da gastronomia da cidade, espécie de empada feita em massa folhada e recheada com carne de vaca. O seu nome está associado à pequena forma de barro preto de Bisalhães em que ia ao forno.