O auditório do Convento de São Francisco tem capacidade para 1225 pessoas. Fotografia: DR

O Convento São Francisco, em Coimbra, que reabre na próxima sexta-feira, quer criar uma Escola Superior de Dança, Corpo e Movimento e ser um espaço de criação artística e de coprodução, que se relacione com agentes e estruturas da cidade e da região. A vontade foi manifestada pelo consultor de programação do equipamento, João Aidos, em entrevista à agência Lusa.

O responsável espera que a escola entre em funcionamento dentro de quatro anos e adiantou que pretende ligar a estrutura do convento ao Conservatório de Música de Coimbra, que tem ensino integrado de dança até ao 9.º ano e que vai ter até ao 12.º. Segundo João Aidos, o Convento São Francisco também já encetou contactos com uma “das escolas de referência na Europa”, a holandesa Codarts, considerando que se justifica a criação desta instituição face à existência apenas da Escola Superior de Dança de Lisboa.

O consultor pretende que o equipamento cultural se relacione com a história e a ciência, potenciando, por um lado, a carga histórica de Coimbra, e, por outro, a sua afirmação enquanto “cidade muito contemporânea”. A programação vai ser “muito cuidada” para que não haja “um excesso de oferta”, explicou o responsável, que considera que este equipamento tem “uma responsabilidade muito grande” de estar atento “à cidade e ao território”, trabalhando em rede com pessoas, agentes, profissionais e estruturas da região.

João Aidos adiantou que o Convento São Francisco está já a planear parcerias com estruturas nacionais, como o Teatro Nacional São Carlos, o Teatro Nacional Dona Maria II e com a Casa da Música, com quem já tem dois espetáculos marcados para o final do ano.

Para o responsável, seria importante um apoio estatal, dando como exemplo uma parceria com o Ministério da Cultura para transformar o espaço numa “plataforma de apoio à criação”, ou com o Ministério da Economia, pela associação do equipamento com as indústrias criativas. “Tal como Serralves, a Casa da Música e o CCB têm uma dotação orçamental que permite garantirem” um serviço público e um apoio à criação, notou João Aidos, que entende que Coimbra “tem todas as condições para se posicionar a esse nível”.

O consultor não afasta a possibilidade de apoios privados e mecenas, a começar pelo ‘cluster’ da saúde, “muito forte” na região, que poderá ter “um papel social” numa colaboração com o São Francisco. A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, Carina Gomes, referiu à agência Lusa que o município está disponível para acolher mecenas, bem como negociar o ‘naming’ de ciclos, espaços do São Francisco ou de um evento específico.

Capacidade para 5 mil pessoas

O Convento São Francisco divide-se em três componentes: a antiga igreja, os claustros do convento e um novo auditório com 1225 lugares, além de várias salas polivalentes até 100 lugares. Em plena utilização, pode ter à volta de cinco mil pessoas em simultâneo.

O espaço cultural tem um orçamento “provisório” de 1,5 milhões de euros para funcionamento e programação, que vai apostar nas áreas de circo contemporâneo, artes digitais, jazz e blues, música clássica, contemporânea, eletrónica, pop e rock. A agenda dos primeiros três meses custa 250 mil euros e está praticamente fechada: a primeira proposta é a peça Dos Bichos, da companhia de teatro O Bando, baseada na obra de Miguel Torga e encenada por João Brites, que foi apresentada neste mesmo espaço há 26 anos, no âmbito da Bienal Universitária de Coimbra.

Ainda este mês, sobem ao palco Mário Laginha, JP Simões, Pedro Burmester e os Mão Morta em dupla com a orquestra clássica Remix Ensemble. A programação inclui também a peça António e Maria, do Teatro Meridional, o espetáculo de dança Cara, de Aldara Bizarro e uma Mostra Internacional de Novo Circo. O pianista Michael Nyman atua em maio, Maria Rita canta em junho, no mesmo mês em que se realiza um Festival de Música Eletrónica e Artes Visuais Digitais.

Situado na margem esquerda do rio Mondego, junto ao Portugal dos Pequenitos, o Convento de São Francisco data de início dos século XVII e em 1888 passou a funcionar como fábrica de lanifícios, que ali se manteve até aos anos 1980. O edifício foi comprado pela Câmara de Coimbra em 1995 e conheceu vários projetos de reabilitação que nunca avançaram. O mais recente, lançado em 2010, sofreu atrasos devido à descoberta de ossadas no subsolo e a inundações durante a empreitada, daí que só agora as obras se aproximem do fim.

As obras de reabilitação do equipamento cultural custaram 42 milhões de euros, pagos com verbas da União Europeia, revela a autarquia. O arquiteto Carrilho da Graça fez uma intervenção nos claustros do convento, dando origem a um grande auditório que é inaugurado esta sexta-feira. Nos próximos meses deverão estar concluídas as obras na igreja do convento e na zona envolvente, que incluirá um parque de estacionamento, numa obra que ficou a cargo do arquiteto Gonçalo Byrne.