A mulher que come homens, Mariana, a Miserável, Largo Pintor Gata

Um primoroso bisonte policromado, uma cena de luta, a silhueta de uma mão delineada por alguém que soprou tinta por uma cana. A gruta pode muito bem ter sido a primeira tela do homem artista, que terá sido o Neandertal, o Homo sapiens ou, bem mais antigo, o Homo erectus. Dúvidas arqueológicas, claro está, numa área onde a certeza é tantas vezes uma miragem, porque não há registos escritos e porque os pigmentos usados são minerais, não orgânicos, pelo que as técnicas de radiocarbono são ineficazes. E nos que são de carvão, só podem extrair-se quantidades minúsculas para não danificar as obras, o que dificulta a sua datação. Em dezembro de 2014 foram descobertas em Bali, na Indonésia, conchas marinhas com gravuras que serviriam para os rapazes impressionarem as namoradas, marcar uma propriedade ou simplesmente rabiscar. Terão cerca de 500.000 anos, o que faria delas as mais antigas do mundo. Estes e outros achados, constantes intrigas para os investigadores, são sem dúvida as mais antigas formas de “arte de rua”, conceito tão vasto quão polémico.

Longe vão os tempos em que o grafiti era “o patinho feio da arte”, mero vandalismo sem classificação, muitas vezes punido por lei. Não é que isso tenha acabado – há quem simplesmente não goste, por toda a parte continuam as obras ilegais e as multas em Portugal vão até aos 25.000 euros –, mas o fenómeno quebrou, em várias frentes, as barreiras da transgressão e da marginalidade, conquistando a atenção de turistas, artistas e críticos de arte. Algumas autarquias passaram a olhar de outro modo para o trabalho dos que quase sempre laboravam na sombra, numa espécie de arte só sua, mas que, como os demais colegas, queriam chegar ao público: perceberam que os grafitis e outras artes de rua, patentes em muros, paredes ou insuspeitos camiões de recolha do lixo, poderiam ser a antecâmara de um produto turístico diferenciado e de uma política de inclusão social, sobretudo naqueles bairros citadinos mais problemáticos. Um pouco por toda a Europa, edifícios antigos e emblemáticos ganharam nova vida, transformados em gigantescos quadros acessíveis ao mais comum dos mortais, mesmo aos que nunca se interessaram pela arte – é a grande vantagem da street art: potencialmente, chega a todos, o que também pode ser um problema. Muitas dessas obras são poderosas mensagens políticas, armas de combate à desigualdade, gritos de inconformismo.

Lisboa é, neste capítulo, uma cidade pioneira, a única, a nível global, que tem um departamento urbano especializado, a Galeria de Arte Urbana (GAU), criado em 2008, com um trabalho reconhecido no país e no estrangeiro. Lagos, Covilhã e Porto – que parece ter abandonado a política da tolerância zero – são outras cidades de que se fala. Lá por fora, Berlim, considerada “a Meca da arte urbana”, tem o maior número de obras, realizadas sobretudo no que resta do Muro construído em 1961. Barcelona é o berço da street art, mas as autoridades têm dificultado a sua expansão. Em Roma, o próprio Papa tem apoiado tais iniciativas, como forma de reabilitar os bairros mais carenciados e problemáticos. E Londres é a cidade natal do aclamado e polémico Banksy, que facilmente choca e impressiona a opinião pública britânica com sátiras de política, religião e guerra. Menos polémico é Vhils, o português cujos rostos que constrói em muros, na fachada de edifícios ou numa singela calçada portuguesa, são já uma imagem de marca da arte europeia de rua. A cidade de Viseu entrou em 2015 no movimento da street art, ao organizar o primeiro festival temático.

Ruas de Viseu, uma galeria de arte urbana

Em maio de 2015, a cidade desafiou sete artistas, portugueses e estrangeiros, a decorarem paredes e fachadas de diversos edifícios. Fidel Évora, Akacorleone, Frederico Draw, Mesk, Marco Mendes, Martinho Costa e Mariana, a Miserável fizeram de Viseu uma galeria de arte urbana, celebrando a primavera e os vinhos do Dão. O largo Pintor Gata, em pleno centro histórico, a Avenida Capitão Silva Pereira, a estação rodoviária e o Bairro da Balsa foram alguns dos locais escolhidos. Neste último, a intervenção foi acompanhada de perto pelos moradores, que acolheram bem o projeto, de tal modo que a menção especial na parede, Balsa City, foi sugerida por um deles. O êxito da iniciativa levou o presidente da Câmara Municipal de Viseu, Almeida Henriques, a admitir a hipótese de criar roteiros turísticos para dar a conhecer estas e outras obras que venham a surgir. O Festival de Street Art foi a principal atração e novidade do Tons da Primavera 2015, evento enoturístico integrado no programa Viseu & Vinho Dão Festa.

Rapaz a tirar o espinho do pé, Fidel Évora, Av. Capitão Silva Pereira

Uma parede com 18 metros de altura. Fidel Évora, de rolo e pincel nas mãos, pintou de dia e de noite, apoiado numa grua que o levou a cada recanto da enorme tela, ocupada de cima a baixo pela figura humana rodeada de simples elementos que evocam a primavera, como o romboedro, um poliedro de seis faces, figura geométrica inspirada na obra de Albrecht Dürer, pintor alemão do Renascimento. Quanto ao rapaz com o espinho no pé, “é uma imagem muito utilizada na arte clássica”, explicou o artista, nascido em Cabo Verde e membro do coletivo Antagonist Movement, de Nova Iorque.

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“A experiencia de beber um excelente copo de vinho”, Akacorleone e Kruella d’Enfer, Bairro da Balsa

O jovem Pedro Campiche foi o primeiro dos sete artistas a chegar à cidade e o primeiro a partir – tinha de ir para as Filipinas, participar noutro festival de arte urbana. Passou mais de 30 horas em cima de gruas e andaimes, acompanhado da colega Kruella d’Enfer, com quem já tinha trabalhado em Banguecoque, pintando paredes que já não existem. “Representei a experiência quase mágica de beber um grande vinho da região e estou bastante contente com o resultado”, confessou o artista, que gastou 150 latas de spray para colorir a fachada com 20 metros de altura e 15 de largura. Os moradores do bairro envolveram-se na obra de arte, deram conselhos. Balsa City, pediu alguém, carinhosamente.

'Balsa City', de Akacorleone e Kruella d’Enfer, um dos projetos artísticos da edição 2015 do festival
‘Balsa City’, de Akacorleone e Kruella d’Enfer, um dos projetos artísticos da edição 2015 do festival

O artista da old school, Martinho Costa, vários locais

Vasos de flores, muros ou caixas da PT e da EDP. Quase tudo serve para exibir o seu talento. Não se vê como um street artist, mas alguém que prefere usar as técnicas da old school. Trabalha maioritariamente nas áreas da pintura, animação de vídeo e intervenções no espaço público, refletindo sobre a forma como as imagens que nos rodeiam são incorporadas nesses media artísticos. Diz que não gosta de impor uma imagem que as pessoas não querem ver, por isso as suas criações “não contam uma história, mas têm ligações entre si e é interessante que as pessoas as descubram”. As obras podem ser vistas entre o Rossio e o Largo de Santa Cristina. Ao longo da Rua Formosa há fragmentos da pintura de Grão Vasco, imagens do filme O Joelho de Claire, de Eric Rohmer, e a lenda de Zeuxis e Parrássio.

O artista da old school, Martinho Costa, vários locais
O artista da old school, Martinho Costa, vários locais

A mulher que come homens, Mariana, a Miserável, Largo Pintor Gata

O objetivo é simples: fazer rir. Uma mulher segura o cacho de uvas com caras de homens e prepara-se para o comer, espécie de Chronos a devorar os filhos. O desenho ocupa uma enorme parede do centro histórico da cidade e não deixa ninguém indiferente. Pertence a Mariana, a Miserável, ilustradora que sonhava ser florista, até se entregar a uma vida de miséria e vender o seu coração para pagar as contas. Acabou a desenvolver o gosto por “não saber desenhar”.

A mulher que come homens, Mariana, a Miserável, Largo Pintor Gata
A mulher que come homens, Mariana, a Miserável, Largo Pintor Gata

Cubismo na esquina, Frederico Draw, Rua Augusto Hilário

Uma outra mulher, menos ameaçadora, ocupa uma das esquinas da Rua Augusto Hilário, um pouco abaixo da Sé. O tom é mais sombrio, de um cinzento que harmoniza a palidez do edifício, e também ela segura um cacho, de olhar posto num sítio imaginário. A sua cara divide-se em duas partes, numa espécie de cubismo em grande escala. Quase todas as personagens de Frederico Draw são assim, frias e distantes, enigmáticas quanto baste. Para ele, a street art é sobretudo uma forma de transformar os espaços vazios, dotando-os de valores culturais e artísticos. Roma, Nápoles, Porto e Lisboa são algumas das cidades que exibem as suas criações.

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A dança, Mesk, Central de Transportes

Um homem e uma mulher envolvem-se numa dança contagiante, um movimento imparável, um exercício futurista que celebra a primavera. Gustavo Teixeira, mais conhecido por Mesk, adora desenhar desde que se conhece, não tem medo de experimentar novas técnicas, sente que criar é algo de inexplicavelmente maravilhoso. Este ilustrador freelancer é co-autor do primeiro graffiti legal do Porto, Dom Quixote acompanhado de Sancho Pança e de um moderno rocinante. ‘Mesk’ provém da mescalina, uma substância psicotrópica extraída de determinadas espécies de catos e que, quando ingerida, provoca alucinações. “Identifico-me com isso, com o fantástico e com imagens inesperadas”, revela.

A dança, Mesk, Central de Transportes
A dança, Mesk, Central de Transportes

Boquinhas, Marco Mendes, Largo de S. Teotónio

Os painéis evocam cenas da taverna Boquinhas, nas traseiras da Sé, um dos espaços de eleição da boémia estudantil viseense, que lhe chama santuário. O autor captou o ambiente e transpô-lo para uma folha, criando o que parece ser uma história de copos, brindes e desgarradas pela noite dentro. Além da banda desenhada, pela qual já venceu o festival AmadoraBD com a novela gráfica Zombie, Marco Mendes é também ilustrador, artista plástico e professor.

Boquinhas, Marco Mendes, Largo de S. Teotónio
Boquinhas, Marco Mendes, Largo de S. Teotónio

As candidaturas para artistas a participarem na segunda edição do Festival de Street Art de Viseu decorrem até 02 de maio.

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