Querubim Lapa (1925-2016). Fotografia: CulturArt

“Não sonhava com a cerâmica. O que eu queria era ser pintor”, confessou Querubim Lapa à revista Up, da TAP, em outubro de 2014. A maioria conhecia-o pelos trabalhos de cerâmica em ruas, avenidas, escolas e outros edifícios públicos e privados, mas o artista, falecido ontem aos 90 anos, nunca se dedicou a uma só arte, tendo feito desenho, gravura, tapeçaria e escultura, sem nunca deixar a pintura.

Nascido em 1925, em Portimão, começou a desenhar ainda criança para “fugir” às quatro irmãs, longe de sonhar com uma carreira nas artes. Estudou na escola profissional Afonso Domingues, de onde o pai esperava que saísse serralheiro, mas um professor adivinhou-lhe o talento e convenceu-o e entrar na António Arroio, cujo curso dava acesso à Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL).

Foi na António Arroio que conheceu alguns dos nomes que viriam a marcar a arte portuguesa do século XX, como Júlio Pomar, Fernando Azevedo, João Abel Manta e Marcelino Vespeira. O neorrealismo era para eles “uma reação tanto política como artística” que nascera de um grupo de pessoas orgulhoso de ser de esquerda, explicava Querubim Lapa quando lhe perguntavam sobre o seu envolvimento na oposição ao regime.

O intenso escrutínio da polícia política do Estado Novo acompanhou-o quase sempre, a desenhar, a pintar, a ser professor na escola António Arroio, onde dirigiu ateliers de cerâmica durante 45 anos, marcando gerações de alunos com a sua dedicação e o seu fascínio pela arte e pelos materiais. Conheciam-no por “mestre”, palavra que precede muitas vezes o seu nome nos textos que sobre ele se escrevem.

Com Chorão Ramalho trabalhou no Centro Comercial do Restelo (1954), um dos primeiros do país, fazendo azulejos de padrão coloridos e com motivos geométricos, fugindo das temáticas folclóricas tão do agrado do Estado Novo. A cobertura do interior e da fachada da Casa da Sorte (1963), numa esquina do Chiado, marcou o auge da sua produção cerâmica, especialmente intensa entre o final da década de 50 e meados de 70, com trabalhos na escola que hoje leva o seu nome, em Campolide (As Meninas e Os Meninos, 1956), na Reitoria da Universidade de Lisboa (A Cultura, 1961), na pastelaria A Mexicana (no mesmo ano) ou no Palácio de Justiça da capital (1969).

A escola de Campolide merece especial atenção por marcar uma certa recuperação da arte do azulejo por parte do regime, que anos antes parecia desconsiderá-la, para mais entregue a um “desalinhado” antifascista, que nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da ESBAL dera nas vistas ao lado de outros artistas, como João Abel Manta, José Dias Coelho, Maria Keil, Conceição Silva, Jorge Vieira, Sena da Silva ou Júlio Pomar.

Querubim Lapa, considerado por muitos o maior ceramista português do século XX, distanciou-se progressivamente da linguagem neorrealista, caminhando para uma abstração que podia assumir formas depuradas ou mais exuberantes. Os painéis de azulejos e outros revestimentos cerâmicos espalhados por Lisboa mostram o seu gosto pela cor, na sua veia de pintor, e pela modelação, ligado ao que nele havia de escultor. Esse “discurso”, marcado por um imaginário único e um inédito tratamento do volume, renovou-se até ao fim, como provam as cerâmicas eróticas, de uma fase tardia.

Alguns especialistas, como o historiador de arte e de design Rui Afonso, temem pelo abandono a que poderão ser votados alguns dos seus trabalhos, como A Mexicana ou a Casa da Sorte. O próprio artista, que ainda em 2014 lamentava o estado de degradação de muitas das suas intervenções espalhadas pela cidade de Lisboa, acusando a a Câmara Municipal de “falta de respeito pela arte”.

Azulejos de Querubim Lapa na fachada da Casa da Sorte, em Lisboa. Fotografia: DR
Azulejos de Querubim Lapa na fachada da Casa da Sorte, em Lisboa. Fotografia: DR

Querubim Lapa dava como exemplo o painel O Terraço, que a autarquia lhe encomendara 20 anos antes para um muro na Avenida da Índia, frente à estação de comboios de Alcântara-Mar, em parte escondido por placards de publicidade autorizados pelo município, e cuja integridade fora comprometida por causa de um projeto imobiliário do arquiteto francês Jean Nouvel que não chegou a avançar.

A 10 de junho de 2015, o artista foi condecorado como Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, lamentou a morte de Querubim Lapa, que considerou “um dos grandes artistas da terceira geração do modernismo português” e “uma das maiores referências da prática cerâmica”. O corpo vai estar em câmara ardente a partir das 17:00 de terça-feira na Basílica da Estrela, em Lisboa, adianta a agência Lusa.

 

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