Fu Yu é uma das mesatenistas que vão representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Fotografia Comité Olímpico de Portugal (COP)
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Lisboa, 29 de janeiro de 1928. A Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências goleava o Sport Lisboa e Benfica por inapeláveis catorze a dois, num dos primeiros jogos de ténis de mesa realizados em Portugal. Por essa altura chamava-se ping pong, desporto inventado, também ele, pelos ingleses, ainda no século XIX, e introduzido no país nas vésperas da primeira guerra mundial, em 1913, pela Associação Cristã da Mocidade (ACM).

Nesses loucos anos 20, a modalidade era quase um exclusivo da capital e arredores. Carnide, Cascais e Triângulo Vermelho faziam concorrência ao clube que seria glorioso. No verão, a Praia das Maçãs, em Sintra, era palco de emotivos torneios que deram a conhecer as primeiras estrelas: os irmãos Pereira de Oliveira – Guilherme, Eduardo e João –, António Luís Esteves, Calheiros Viegas ou Gerardo Maia, que se auto-intitulou campeão de Portugal por alegadamente ter vencido o campeão do norte…

No final da década, o ping pong era já um desporto muito popular, atraindo inúmeros associados dos clubes bem como estudantes universitários. Os empregados das companhias multinacionais chegavam a ceder as próprias instalações para os jogos. Em 1928 realizou-se a primeira competição de que há registo, a Taça Gustavo Moreira, disputada por 18 equipas, entre elas dois grandes do futebol, o Benfica e Os Belenenses.

Era um tempo em que qualquer mesa servia, até mesmo a de jantar. Um monte de livros podia fazer de rede, uma rolha de garrafa passava por bola e uma caixa de charutos virava raquete, que na maioria dos casos era de madeira, por vezes revestida de lixa, cortiça ou pano de bilhar. O barulho deu origem ao nome ping pong. Não havia “efeitos”, pois claro, e os jogadores tentavam surpreender o adversário na colocação, rapidez e regularidade das batidas. Só os melhores podiam ser bons, em “emotivos espetáculos que eram apreciados por um público atento e fiel”, recorda a Federação Portuguesa de Ténis de Mesa (FPTM).

A borracha de picos – também chamada de picot anglais – só veio depois, para revolucionar a técnica, permitindo maior aderência, o que dificultava a devolução e ao mesmo tempo facilitava o ataque. “O jogo ficou mais variado, espetacular e atlético”. Alguns não conseguiram adaptar-se e desistiram ou deixaram de ser estrelas. Foi o caso de Manuel Peixoto, mas não de Joaquim Cardozo, campeão individual de Lisboa em 1932-33 ao serviço do Benfica, num campeonato com 27 jogadores em que não perdeu um único encontro.

Geração de ouro

Mais de 80 anos o separam de Fu Yu, Marcos Freitas, Tiago Apolónia, João Monteiro e Jieni Shao (apurou-se hoje), os cinco mesatenistas que vão representar Portugal nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A estreante Fu Yu nasceu na província chinesa de Hebei em 1978 e começou a jogar com apenas sete anos num país onde a modalidade é desporto nacional.

Em 1998 deixou a China para competir em Espanha e, três anos depois, foi contratada pelo GD Estreito, um clube da Madeira, vivendo desde então em Portugal, onde casou e criou família. Com mais de 20 anos de carreira, Fu Yu naturalizou-se em 2013 e nesse ano tornou-se na primeira mesatenista portuguesa a conquistar uma medalha numa prova internacional, os Europeus de Ténis de Mesa realizados em Scwechat, na Áustria.

Fu Yu nasceu na China em 1978. Fotografia; Comité Olímpico de Portugal
Fu Yu nasceu na China em 1978. Fotografia: Comité Olímpico de Portugal

Em 2015 representou Portugal na primeira edição dos Jogos Europeus disputados em Baku, no Azerbaijão, e alcançou a segunda medalha em Europeus. Já este ano, em abril, selou a qualificação para os Jogos Olímpicos, onde vai ser a única representante portuguesa na modalidade.

Marcos Freitas dispensa apresentações, ou não fosse o mesatenista português com o melhor ranking ITTF de sempre e o único a entrar no top-10 mundial. Nascido na Madeira em 1988, começou a praticar judo muito novo, algo que o corpo franzino não revela, antes de, com seis anos, experimentar o ténis de mesa por influência dos pais.

O primeiro grande título surgiu em 2009, quando se sagrou campeão europeu, sendo até hoje o único jogador português a conseguir tal feito, repetido em 2014. Em 2012, na estreia em Jogos Olímpicos, em Londres, foi 17º e na competição por equipas alcançou o 5º lugar, juntamente com Tiago Apolónia e João Monteiro.

Marcos Freitas, o melhor mesatenista português da atualidade. Fotografia: Saeed Khan/AFP/GettyImages
Marcos Freitas, o melhor mesatenista português da atualidade. Fotografia: Saeed Khan/AFP/GettyImages

A seleção nacional masculina é, de resto, uma das melhores do mundo da atualidade, estatuto alcançado no dia 28 de setembro de 2014, num Meo Arena lotado e pequeno para a emoção de ver Portugal vencer o Campeonato da Europa diante da superfavorita Alemanha – hexacampeã europeia em título e maior potência da modalidade no velho continente –, e cimentado no início de 2015 com a medalha de bronze na Taça do Mundo do Dubai, que juntou as 12 seleções mais bem classificadas no ranking ITTF, e a de ouro nos Jogos Europeus de Baku.

Tiago Apolónia nasceu em 1986 em Lisboa e, como os demais, começou a jogar ténis de mesa muito novo, com a camisola do Futebol Clube Estrela da Amadora. Entre os mais de 60 títulos que conquistou, guarda com especial carinho o de 2014, no Open da Alemanha, de onde trouxe o bronze, melhor resultado individual em termos internacionais.

O primeiro mesatenista português a qualificar-se para os Jogos Olímpicos, os de Pequim, em 2008, foi João Monteiro, mais conhecido por “Monti”, de 32 anos, que aos 10 foi “descoberto” para a modalidade pelo professor Filipe Amaral – seu primeiro treinador – durante uma ação de captação que se realizou na escola que frequentava na altura. O momento mais alto da carreira aconteceu no ano passado, quando se sagrou campeão europeu de pares ao lado do austríaco Stefan Fegerl, em Ecaterimburgo, na Rússia.

Rumo aos Jogos

Os títulos, as vitórias, medalhas e subidas de ranking vão coroando uma geração que há muito conquistou as atenções mundiais e que este ano, nos Jogos Olímpicos do Brasil, quer voltar a fazer história. Talento, já se sabe que existe. Dizem que é a melhor de sempre, a “geração de ouro”, e é provável que assim seja, embora tais comparações sejam tantas vezes injustas. Porque o jogo evoluiu, as raquetes são muito mais maneáveis, as bolas bem mais leves – pesam menos de três gramas – e já ninguém joga de mangas de camisa e colarinho apertado.

Uma sorte, diria Agostinho Pinto, entusiasta da modalidade, que na década de 30, quando organizou em Lisboa o primeiro torneio de pares, teve que convencer os jogadores a usar equipamento apropriado, sem colarinho, que não poucas vezes era de goma, colete ou casaco. As dificuldades foram tantas que o próprio foi obrigado a colar papel gomado nas mesas, para fazer as marcações, pois ninguém permitia que fossem pintadas.

Primórdios de um desporto que viria a consagrar nomes como Afonso Gago da Silva (primeiro campeão nacional, 1947), Fernando Oliveira Ramos (ainda hoje recordista de títulos nacionais de singulares, oito consecutivos entre 1949 e 1956), Manuela de Jesus (primeira atleta a vencer o campeonato, em 1956), José Alvoeiro (o mesatenista português com mais campeonatos, 25), ou Ricardo Roberto (o primeiro a ganhar uma medalha numa prova europeia, o Europeu de Jovens, em 1994). A história do ténis de mesa português continua em agosto, no Rio de Janeiro.

 

Texto: Lino Ramos