O Teatro Camões, em Lisboa, recebe a 16 de junho a estreia mundial do espetáculo Carnaval, que vai juntar no mesmo palco artistas da Companhia Nacional de Bailado (CNB) e a Orquestra Sinfónica Portuguesa e que é construído a partir de Carnaval dos Animais, do compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921).

Uma das peculiaridades desta peça para dois pianos e orquestra é o facto de se apropriar de peças de outros compositores e de peças anteriores do mesmo autor, revisitadas num tom parodístico e mascaradas com nomes de animais. O espetáculo do próximo mês recorre a uma técnica idêntica, mas inversa: vários compositores portugueses vão compor um tema original associado aos 14 movimentos musicais de Carnaval dos Animais, aplicando a técnica artística do ‘cadavre-exquis’, ou seja, iniciando a sua composição no final do tema anterior e levando-a até ao tema seguinte.

Para além dos desafios da composição musical, da articulação de conceitos dentro de e entre cada movimento ou da sintonia e contraste entre cada compositor convidado, Carnaval pretende trabalhar a questão do significado simbólico, cristão e pagão, desta festa, e “todas as outras problemáticas culturais e filosóficas que gravitam em torno do símbolo”, revela o coreógrafo do espetáculo, Victor Hugo Pontes.

“No Carnaval, enquanto manifestação burlesca, há uma clara aproximação às questões mais fundamentais colocadas pelo teatro e pela dança, por exemplo – a máscara, a mentira, o fingimento, a peripécia, a cumplicidade da assistência naquilo que todos sabem ser um jogo. A oscilação entre realidade e farsa é de resto o que sustenta quer um gesto artístico quer um disfarce carnavalesco”, explica.

Também por esse motivo, o espetáculo que estreia no próximo mês é povoado por seres imaginários, como sereias, unicórnios, a fénix e o fauno, Os animais, as máscaras e a morte são os temas-chave de Carnaval, que se inspira ainda num poema de Adília Lopes.

O espetáculo estreia a 16 de junho, às 21:00, e prossegue nos dias 17, 18, 23, 24 e 25, à mesma hora, e nos dias 19 e 26 às 16:00, com bilhetes entre os 5€ os 30€. No dia 22 realiza-se uma sessão para escolas, com ingressos a 3€.

Carnaval tem ainda uma vertente solidária, já que quem fizer um donativo a partir de 12 euros para uma das quatro associações envolvidas – BUS, IPO Lisboa, Fundação Champagnat e AMI– tem direito a assistir ao ensaio geral de dia 15 de Junho, às 21:00 horas.

Uma raposa que tinha brincado com outra
no quintal da casa da mãe
às fábulas de La Fontaine antes de as ter lido
e que depois as leu e disse
as fábulas de La Fontaine tinham razão!
ficou com muita vontade de ir para a floresta
brincar a sério às fábulas de La Fontaine
à entrada da floresta estava uma raposa
a raposa perguntou isto é uma floresta
a sério ou a fingir?
a raposa da entrada da floresta
achou a pergunta tão ingénua
que achou que não valia a pena
estar a explicar à outra
que ali ou se come ou se é comido
e que para quem come como para quem é comido
saber se ali é uma floresta a sério ou a fingir
não é uma questão pertinente
isto aqui é uma casa particular
respondeu a raposa
e bocejou
Adília Lopes,
in Os 5 livros de versos salvaram o tio, 1991.
Dobra – Poesia Reunida 1983-2014