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O material era barato e eles principiantes. Mas havia um propósito maior: fazer um relógio. Podiam escolher as cores e os materiais, os ponteiros e o “motor” eram por conta da casa, neste caso, da escola. Estavam na aula de Educação Visual, mas aquilo mais parecia um pequeno atelier de pequenos mestres relojoeiros. Um miúdo atrasou-se, e três amigos seus, mais ligeiros na arte, vieram dar-lhe uma ajuda, colando os últimos cartões do símbolo do Benfica e fazendo os retoques que se impunham. Ele estava mais preocupado em acertar as agulhas.

O relógio é um objeto enigmático: acorda-nos pela manhã, diz-nos que é hora de almoçar, tempo de mexer os cordelinhos e pôr mãos à obra. Também nos orienta na escolha do programa de televisão, na melhor altura para ir às Finanças ou às compras. E à noite leva-nos para a cama. Em suma, ele rege a vida de quase todos. Mas, se pensarmos bem, é apenas um utensílio ao serviço do tempo, esse vocabulário que se usa para tudo e mais alguma coisa. Simultaneamente encantador e tenebroso.

O Lugar do Tempo, em Campo de Ourique, começou por ser um lugar de colecionismo e relojoaria, mas os pedidos foram crescendo e agora o espaço funciona quase exclusivamente como oficina de relógios. À frente do negócio está Pedro Machado, formado em desing gráfico, que há muito que se entregou a outra arte. A família esteve sempre ligada ao mundo dos automóveis e ele desde cedo se interessou pela mecânica. Decidiu especializar-se no restauro de relógios antigos, que, tal como os carros, têm mecânica mais robusta, mais desafiante. A oficina abriu há seis anos. Pedro Machado aproveitou os restos de materiais de relojoarias que estavam a fechar, trouxe de lá ferramentas antigas de boa qualidade que ainda podiam ser arranjadas. O espaço não foi problema, bastava uma salinha: é lá que compõe cada peça, cada obra de arte, com ajuda de um torno, também ele mecânico, de 1930, e pedal metido na bancada. Montar é um exercício de equilíbrio e detalhe.

O negócio dos relógios artesanais combina a simplicidade e o requinte, a ilusão do despercebido com o ritmo dos dias guiados pela cronologia implacável. Há muito que o homem percebeu a importância de medir o tempo, de o “dominar”. Primeiro foram os relógios de sol, depois os de água e as ampulhetas, até que surgiram os modelo mecânicos e com eles os relógios de ponteiros. Fazê-los sempre foi uma arte, desenhá-los também. Joana Vasconcelos assinou recentemente um relógio da Swatch em que cada mostrador da peça é feito com filigrana de metal, produzida à mão por artesãos do norte do país. O revestimento é dourado, o bracelete tem silicone preto. É a primeira artista portuguesa a colaborar com a marca suíça, que nos últimos 30 anos convidou nomes como David La Chapelle, Keith Haring, Vivienne Westwood ou Jeremy Scott para produzir relógios.

Um objeto do dia-a-dia transformado numa peça de “alta cultura” e edição limitada. “Esta colaboração com a Swatch deixa-me feliz, pois permite que o meu trabalho possa ser vivido todos os dias, a todas as horas”, confessa Joana Vasconcelos a propósito do Look Easy – assim se chama o relógio. A marca elogia a criação, descrevendo-a como um hino à elegância intemporal e um tributo à perícia artesanal”, e lembra que nunca um relógio Swatch havia sido montado à mão.

Pilhas num relógio mecânico?

Um relógio artesanal é o resultado de um trabalho que junta escultura, grafismo e mecânica. Como na ópera, exige-se o domínio de várias técnicas. E há até quem comece a romper fronteiras. Foi isso que pensou e fez o artista canadiano Gislan Benoit, criador do “The Clock”, um dispositivo digital sem os minúsculos circuitos integrados que equipam os relógios de pulso e parede. Esta surpreendente obra de arte pesa 6,35 quilogramas e é composta por 1161 diodos, 340 transístores, 346 resistências, 60 LEDs vermelhas, 6 interruptores magnéticos e 3 ecrãs que apresentam as horas. Benoit montou-o à mão durante três anos e não admite vendê-lo por menos de 150.000 dólares.

Pedro Machado, da Oficina do Tempo, por certo não está interessado. É um apaixonado pelas máquinas antigas. Um Rólex de 1910, um cronógrafo Breiting dos anos 40 ou 50, o primeiro Speedmaster, de 1957, um relógio inglês do século XVIII. Estas e outras relíquias continuam a passar-lhe pelas mãos. É um privilegiado, pode dizer-se. O pior é quando lhe pedem para meter uma máquina a pilhas dentro de um relógio mecânico. Arrepia-se, pois claro.

O relojoeiro sabe que o negócio mudou. Antes ia à Omega e comprava os relógios de que precisava, hoje a empresa quer fazer o trabalho por si mesma. Como quase todas as marcas, já não vende peças para fora, talvez por querer acabar com a relojoaria independente. Para ter o que procura, Pedro Machado tem muitas vezes que comprar longe, na Austrália por exemplo. Mas há outra mudança, mais positiva: as pessoas procuram cada vez mais os relógios antigos. Dantes, muita gente tinha um de corda, depois vieram os de pilhas e a massificação, e tornou-se mais fácil comprar um novo do que reparar o antigo. Hoje em dia, assiste-se a uma espécie de regresso o passado. Os clientes querem uma peça diferente, e não um simples gadget.

É um tempo curioso: a tecnologia avança em vertigem, os telemóveis e smartphones tomaram o lugar de muitos relógios, que perderam o protagonismo do tempo em que assinalavam uma conquista, uma data, um estatuto, mas há sempre quem resista e não abandone os clássicos. São sobretudo homens: para muitos, o relógio mecânico, artesanal ou não, é ainda uma espécie de troféu. Usam-no mais pela emoção do que pela lógica. Outros sabem que cada relógio transmite uma mensagem diferente: ter um é pertencer a um certo clube, mais ou menos elitista. Para outros ainda, tudo se resume a uma questão de personalidade.