Queima do Toco em Várzea de Calde | Fotografia: Tiago Canoso
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A queima do toco em Várzea de Calde, Viseu, tem sido vivida por várias gerações. Também este ano, a 3 de outubro, moradores e visitantes se reuniram para mais uma edição do evento.

Reza a lenda que há centenas de anos as pessoas se reuniam na noite de 3 de outubro, em homenagem a S. Francisco, padroeiro da aldeia, para fazerem uma vigília. Como nesta altura o frio já se fazia sentir, as pessoas começaram a roubar lenha. A certa altura foram a uma quinta para roubar um cepo de castanheiro enorme que lá estava, mas só conseguiram usando um carro para o transportar. Mas este cepo não foi propriamente roubado, pois o dono estava lá e disse a quem estava a roubar: “levem-no lá, mas não o levavam se eu cá não estivesse”. É Leonel Oliveira, dono do carro de bois onde actualmente são transportados os tocos, quem nos conta esta história, relembrando o tempo em que o seu próprio avô lhe contava histórias desta tradição.

Hoje, foram necessários mais de 20 homens para cortar e carregar os tocos e ao chegar ao largo de S. Francisco já estavam cerca de 60 pessoas a ajudar a puxar o carro. A desertificação das aldeias e o envelhecimento da população faz com que já não haja homens solteiros suficientes para esta tarefa, como mandava a tradição, pelo que actualmente a maioria dos homens que puxam o carro são casados. “É uma grande tradição, não se encontra nem na zona, nem na europa”, sublinha Leonel Oliveira. Muitos emigrantes decidem regressar às origens neste dia, para viverem a tradição. Este ano não foi excepção.

Património histórico

“Estas são tradições locais que fazem parte do nosso património histórico”, frisa Raquel Greenleaf, Coordenadora do Museu Etnográfico “Casa de Lavoura e Oficina do Linho”, situado em Várzea de Calde. Excepcionalmente, o museu abriu esta noite para permitir aos visitantes que vêm ver a queima do toco visitarem o museu. Aliás, houve mesmo um grupo de brasileiros que solicitou uma visita guiada à Casa de Lavoura e Oficina do Linho.

O museu etnográfico, o município de Viseu e a associação binaural/ nodar estão a desenvolver um trabalho no sentido de perceber de que forma esta tradição evoluiu ao longo do tempo, refere-nos Luís Costa, coordenador da associação.

Carro usado para transportar o toco | Fotografia: Tiago Canoso
Carro usado para transportar o toco | Fotografia: Tiago Canoso