Fotografia: Museu do Vinho do Porto

“Este é um museu que retrata a importância económica e histórica que o Vinho do Porto teve para a cidade”, começa por contar Liliana Pereira, coordenadora do Museu do Vinho do Porto. Nessa ligação histórica do Vinho e do Douro à cidade invicta há duas personagens incontornáveis pela sua ousadia e espírito inovador: o Barão de Forrester e D. Antónia. O primeiro, de origem inglesa, veio trabalhar para o Porto e “tornou-se um apaixonado por toda esta região”, revela a coordenadora. É ele o responsável pelo desenho do primeiro mapa da região demarcada do Rio Douro, no qual identifica a localização dos maiores perigos do rio: o Salto da Sardinha, o Cachão da Valeira e as Pedras Âncoras. Ironia do destino, o Barão perdeu a vida no segundo dos maiores perigos que assinalou. D. Antónia era a maior produtora e exportadora de vinhos do séc. XIX e, no mesmo naufrágio em que o Barão morreu devido ao peso do ouro que levava nos bolsos, ela salvou-se, reza a lenda, graças às saias que envergava.

O edifício que alberga o Museu, denominado “Cais Novo”, foi o primeiro armazém de vinhos da cidade. Construído no final do séc. XVIII, guardava os vinhos produzidos quer pela família que o edificou, quer pela Companhia Geral da Agricultura de Vinhas do Alto Douro, criada pelo Marquês de Pombal em 1756, para controlar o transporte e exportação de vinho. Entre 1822 e 1872, o armazém foi utilizado pela Alfândega Nova. Daí até 1999, ano em que se idealizou o Museu, o espaço teve diversas serventias mas todas elas afastadas da sua conceção original.

As obras de requalificação do espaço contaram com uma equipa de arqueólogos que encontrou peças de loiça, hoje em exibição numa vitrina do Museu. A exposição pretende “mostrar a atividade comercial desta zona e a proximidade com a fábrica de loiça de Massarelos”, explica a coordenadora. As peças datam dos séculos, XVI, XVIII e XIX.

Fotografia: Museu do Vinho do Porto
Fotografia: Museu do Vinho do Porto

As embarcações do Douro

Mesmo após a construção da linha ferroviária do Douro, no final do séc. XIX, o Barco Rabelo continuou a ser o meio de transporte principal dos cascos de vinho. Um barco trazia em média 50 cascos, cada um com capacidade para 500 a 550 litros de vinho. Um vídeo mostra ao visitante cada passo da construção do Rabelo, que demorava dois meses. “As viagens a descer o rio demoravam dois a três dias e a subir dez porque em muitos sítios tinham de ser os próprios homens a puxar o barco. As correntes era muito fortes”, explica Liliana Pereira. Os Rabelos circulavam apenas de fim de fevereiro a início de junho porque o caudal do rio era mais estável. Hoje apenas são utilizados para turismo e na regata de S. João.

Além do Rabelo, outras embarcações circulavam no Douro: “a Barca das Padeiras (trazia o pão para a cidade), a Barca de frete ou de passagem, o Valboerio (barco de pesca construído em Valbom), o Carvoeiro (transportava carvão) e o Rabão de Apegadas”, enumera a coordenadora.

Museu para todos

O Museu do Vinho do Porto recebe cerca de 25000 visitantes por ano, número que tem vindo a aumentar. De acordo com Liliana Pereira, “a maioria são estrangeiros”, verificando-se uma grande afluência de franceses em 2013. A nível nacional, o Museu é muito procurado por escolas, incluindo na sua oferta oficinas e jogos. Numa perspetiva de acessibilidade, dispõe de informação em português, inglês, francês e braille.

A par da exposição permanente há outras temporárias, sempre ligadas à temática. Na segunda quinzena de outubro o Museu recebe uma coleção de tapeçaria. Segue-se uma mostra de pintura e de escultura ligadas ao Douro e cujo principal material é o barril.

O visitante tem ao dispor uma pequena loja com vinhos e publicações ligadas ao Vinho do Porto e uma sala de conferências para aluguer.

Texto: Catarina Cascais

Artigo publicado originalmente em outubro de 2013 no número 17 da revista Descla, edição impressa.

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