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Um excerto da Ode Marítima cumprimenta os visitantes que adivinham no poema a alma desta pátria à beira mar plantada. O Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) é um reservatório da força e da coragem que lançou os portugueses, em geral, na epopeia dos descobrimentos e os ilhavenses, em particular, na pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia.

E é em homenagem à faina do bacalhau que dezenas destas espécies habitam, desde Janeiro, no museu. Álvaro Garrido, consultor do MMI, faz o balanço dos primeiros meses do Aquário de Bacalhaus: “altamente positivo ao nível da integração patrimonial do Aquário, do público e da renovação das dinâmicas de projeto do Museu”.

O MMI foi fundado em 1937, por Américo Teles. Álvaro Garrido define-o como “um lugar de memória da vida marítima e uma instituição promotora da cidadania do mar”. Nesse sentido, o museu tem como missão “sociocultural o reforço da identidade e da cultura marítima local, regional e nacional”.

Em 2001, o edifício sofreu uma remodelação e ampliação, incorporando novas estruturas: a Sala da Ria, a “torre” negra central das exposições temporárias, o corpo administrativo, a biblioteca e a cafetaria. O projeto de arquitetura que lhe deu origem, do Gabinete ARX Portugal, já recebeu vários prémios nacionais e internacionais.

Estruturas do MMI

O CIEMar-Ílhavo é uma subunidade do MMI dedicada à investigação. Os temas mais estudados são: “as representações culturais e artísticas da maritimidade portuguesa, a história marítima relacionada com as pescarias, a antropologia marítima das comunidades piscatórias e costeiras, os fundos de arquivo preservados no MMI e a pesca do bacalhau e a sua centralidade na cultura portuguesa”, esclarece o consultor do museu. Para tal, este organismo interage com universidades e centros de investigação.

Outra das estruturas do MMI é o Navio Museu Santo André, uma antiga embarcação da frota portuguesa do bacalhau. Este arrastão foi construído em 1949, na Holanda, a pedido da Empresa de Pesca de Aveiro. Volvidos 52 anos, foi transformado em Museu, a fim de perpetuar a pesca do arrasto do bacalhau e a memória dos que nela trabalharam.

O Dia Internacional dos Oceanos integra o programa de atividades do MMI, através “ateliers de serviço educativo destinados a socializar e formar públicos, de forma criativa, em torno de aspetos práticos da cultura marítima”, esclarece Álvaro Garrido.

Exposições

São quatro as exposições permanentes do MMI: Sala da Faina/Capitão Francisco Marques, Sala da Ria, Sala dos Mares e Sala das Conchas. A primeira sala é dedicada à faina do bacalhau com linha com dóris

Esta sala é dividida em três partes: no centro a reconstituição de um iate de pesca do bacalhau do começo do séc. XX, cortado pelo limite inferior do convés, à esquerda os compartimentos do navio, como a cozinha e os dormitórios, e à direita uma exposição de peças que fizeram parte do quotidiano da tripulação.

Na parede, várias fotografias a preto e branco retratam a pesca do bacalhau na Gronelândia e na Terra Nova, juntamente com excertos d’ “A Campanha do Argus”, de Alan Villiers.

A Ria de Aveiro teve uma importância vital na economia da região, pelo que não é de estranhar uma sala a ela dedicada. Aqui exibem-se embarcações reais típicas da Ria, como o Moliceiro, com os seus painéis de proa coloridos e atrevidos, o Mercantel e vários tipos de bateiras. Também alguns objetos utilizados nas lides da Ria estão expostos.

A Sala das Conchas expõe em duas vitrinas um vasto conjunto de conchas e búzios, com indicação do local de apanha. O espólio foi doado por Pierre Delpeut, em 1965. Álvaro Garrido admite que “o MMI está aberto a doações e depósitos que enriqueçam coerentemente as suas coleções”.

A Sala dos Mares dedica-se não apenas às atividades marítimas da região mas de todo o país. Nela é possível observar embarcações em miniatura, como a Muleta do Tejo, ou o Caíque do Algarve, bússolas, transferidores, relógio de sol, sextante, monóculo, entre outros artefactos. A sala é decorada com fotografias a preto e branco e registos históricos sobre os Ilhavenses.

Todo o Museu está decorado com pinturas, desenhos e esculturas de artistas locais ou regionais, de entre os quais Álvaro Garrido destaca Cândido Teles e João Carlos Celestino Gomes.

 

Texto e fotografia: Catarina Cascais

Artigo publicado originalmente em junho de 2013 no número 14 da revista Descla, edição impressa