Fotografia: Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
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A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) apela à participação dos cidadãos na campanha de crowdfunding que está a promover e que visa conservação da floresta da ilha da Madeira e dos seres que nela vivem, em particular o fura-bardos, uma ave enigmática da Laurissilva.

A SPEA lançou, em 2013, projeto Life Fura-bardos, o qual permitiu, desde então, controlar espécies invasoras em 64 hectares de floresta e limpar 36 hectares de floresta ardida, posteriormente reflorestada, bem como produzir 350kg de sementes que originaram cerca de 60.000 plantas nativas.

No entanto, e de acordo com a Sociedade, a falta de verbas põe em causa a monitorização desta enigmática espécie e dos seus ninhos durante a próxima época reprodutora, além da conservação do seu habitat de Laurissilva e a realização de ações de educação ambiental.

A SPEA iniciou, por isso, uma campanha de crowdfunding para angariar 55.000 euros e na qual apela ao contributo dos cidadãos para a salvaguarda do fura-bardos, uve de rapina endémica da Macaronésia, de conservação prioritária, que nidifica apenas na ilha da Madeira e em cinco ilhas das Canárias.

Falta produzir 10.000 plantas nativas

A reflorestação da floresta Laurissilva da Madeira é essencial para alcançar esse objetivo, uma vez que é neste habitat que o futa-bardos encontra abundância de alimento e, consequentemente, constrói os seus ninhos. “Faltam ser produzidas cerca de 10.000 plantas nativas para colmatar falhas na próxima época, em zonas vulneráveis onde é extremamente crucial intervir”, refere Marta Nunes, uma das técnicas da SPEA Madeira.

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves revela que durante a época de reprodução deste ano do fura-bardos, do total de quase uma centena de ninhos, foram descobertos e monitorizados 25 novos ninhos, dos quais 17 ativos. Cerca de 60 técnicos e 20 voluntários e estagiários têm vindo a monitorizar a espécie, o que permitiu recolher cerca de 200 amostras de presas do fura-bardos durante este ano, do total de 600 recolhas desde o início do projeto.

“A monitorização da espécie e a recolha de amostras nas áreas de nidificação tem permitido o estudo de uma ave que, até o início deste projeto, era desconhecida”, sublinha a SPEA. O avanço científico tem sido contínuo, culminado este ano na III Reunião da Comissão Científica do Life Fura-bardos, seguido do Workshop para Revisão do Plano de Ação do Fura-bardos, que permitiram a elaboração de um plano para manter um estatuto de conservação favorável à espécie no futuro.

A importância da Laurissilva

A coordenadora do projeto, Cátia Gouveia, salienta a importância da participação neste crowdfunding. “Parte destes 55 mil euros irão permitir a monitorização das áreas de nidificação da espécie durante a sua época reprodutora”, revela, adiantando que “para que o plano de conservação do fura-bardos seja mais eficaz e pormenorizado, é necessário um estudo no terreno sobre a ecologia da espécie e as ameaças à sua conservação”.

A par dos trabalhos de estudo e conservação, a sensibilização ambiental já chegou a quase 10.000 pessoas durante três anos, incluindo 2000 alunos só em 2016, através de exposições, palestras, ateliers e atividades de plantação de árvores da Laurissilva. “É também necessário finalizar os trabalhos de sensibilização com os agricultores, para a compatibilização das atividades agrícolas com a sobrevivência do fura-bardos”, destaca a SPEA.

A Sociedade chama a atenção para a importãncia de dar continuidade a estes trabalhos de estudo, conservação e sensibilização do fura-bardos e Laurissilva, os quais permitem não só a conservação do fura-bardos mas também de um ecossistema sensível a incêndios, desflorestação e pressão humana.

“Uma floresta natural em bom estado de conservação beneficia também e muito as pessoas”, alerta a SPEA, lembrando que a foresta laurissíva da Madeira retém a água das chuvas, reduzindo o risco de enxurradas no inverno e o risco de incêncios no verão. “É ainda uma fonte de recarga das reservas de água subterrãneas que actua durante todo o ano. Ou seja, a conservação da floresta Laurissilva da Madeira, é vital para o fura-bardos e essencial para o bem-estar das pessoas”, concluia a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.