Em 1359 D. Pedro andava por Alter do Chão a supervisionar as obras do castelo que mandara reconstruir. Um dia, ouvindo duas mulheres a discutir, uma chamou à outra roussada. Curioso, o rei mandou chamá-las e perguntou o que significava aquele insulto, ao que lhe responderam que a dita mulher fora violada pelo marido antes de se casar com ele. Haviam passado sete anos e tinham dois filhos. Viviam felizes, mas o rei, a quem haveriam de chamar Justiceiro, não deu ouvidos aos rogos da mulher de que o assunto já estava resolvido e mandou prender o homem, condenando-o de imediato à forca.

A lenda acompanha a história deste bonito e bem conservado castelo, um edifício majestoso que serviu de residência, alcaidaria, loja de ferrador, oficina de carpinteiro, cavalariça, lagar de azeite, celeiro e… lixeira. A crónica de Alter do Chão começa a ser escrita pelos romanos, que lhe deram o nome de Eleteri ou Abeleterium. Por aqui passava uma das três vias que ligavam Olissipo (Lisboa) a Emérita (Mérida), capital da Lusitânia. Mais tarde, as legiões de Adriano destruíram o povoado e esse será o provável motivo para a construção de uma fortaleza romana.

Tais defesas foram danificadas depois pelos Vândalos, até que os muçulmanos reconstruíram o edifício, provavelmente no governo de Abd al-Rahmann III, como sugerem algumas fiadas de aparelho construtivo, vincadamente califal. Esse facto comprova o estatuto da vila como importante posto de defesa e organização do Al-Andaluz, status que manteve por muito tempo. D. Afonso II recuperou a povoação em 1216 e de imediato ordenou o seu repovoamento. A vila e o castelo tornaram-se então pontos estratégicos no movimento de reconquista do Alto Alentejo. Isso messo é comprovado pelas duas cartas de foral que esta terra recebeu. A última, atribuída por D. Dinis, dava tamanha importância à vila que lhe concedia, entre outros privilégios, o de nuca poder vir a pertencer a mais ninguém que não ao rei de Portugal.

A prisão de D. Fernando II

Estilo gótico, planta quadrangular, muralha de xisto e granito, reforçada por seis torres. O edifício que hoje vemos foi mandado construir por D. Pedro I, em 1357, de acordo com a placa tipográfica de mármore que se encontra sobre o portão principal. Era Miléssima: CCC e Noventa V anos XXII dias de Setembro o mui nobre rei Dom Pedro mandou fazer este castelo. O desenho da planta é um bom exemplo da racionalidade do projeto e das novas determinações trecentistas.

A Torre de Menagem, com 44 metros de altura, está associada ao portão principal, que fica mesmo no seu interior, formando uma espécie de túnel. Para a visitar há que seguir pela linha de adarve que percorre todo o recinto, o que mostra o quão importante era a fortaleza em caso de invasão do primeiro piso. Nos ângulos da muralha encontramos dois cubelos cilíndricos, mais pequenos do que a torre de menagem, que complementam o sistema defensivo e aos quias também só é possível aceder através do adarve. O castelo tem ainda duas torres e um torreão quadrangulares. Lá dentro, num amplo pátio, sobressai o rebordo quadrado de um poço e, ao fundo, o que resta da antiga alcaidaria, claramente transformada, para dar resposta às múltiplas utilizações que o edifício teve.

Este castelo destaca-se pela diferença. A construção numa planície chã e o facto de ser usado como residência, colocam-no longe do estereótipo das fortalezas construídas em sítios altos para melhor defenderem a população da investida inimiga. Já no século XIV, o rei D. Fernando doou a vila a D. Nuno Álvares Pereira, que a legou, na sua morte, à filha. Depois esta casou-se com o duque de Bragança e o edifício passou para os domínios dessa Casa, onde se mantém até hoje, apesar de ter mudado de mãos por diversas vezes. Em finais do século XV, D. Fernando II, duque de Bragança, utilizou o castelo como prisão, argumento que viria a ser usado contra si aquando das acusações por rebeldia e conspiração contra o soberano, que levaram a que fosse condenado à morte.

A história e o valor patrimonial do castelo de Alter do Chão começaram a ser esquecidos no século XX. Depois de ser residência senhorial, estalagem e alcaidaria, o edifício viu nascer no seu interior uma oficina de carpintaria, um celeiro, cavalariças, uma loja de ferrador, um lagar de azeite e até mesmo uma lixeira. De pouco valia a classificação como Monumento Nacional, de 1910. As obras de consolidação e restauro, começadas na década de 50, deram-lhe nova vida, e o castelo encontra-se hoje em bom estado, rodeado de grandes pinheiros e cedros que cobrem uma estreita faixa ajardinada. Se o visitar, tente não ver. Dizem que uma serpente aparece junto ao portão gótico e mata quem se aproxima de olhos abertos…

 

Texto: Lino Ramos

Fotografia: Tiago Canoso

Artigo publicado originalmente em dezembro de 2015 no número 26 da revista Descla, edição impressa