“Luís de Camões, poeta e galanteador”. É assim que se apresenta a primeira personagem desta viagem. Não que tenha sido um grande navegador. Mas foi ele que, pela palavra, eternizou a epopeia portuguesa por “mares nunca d’antes navegados”. Tal como durante séculos levou o mundo a conhecer os feitos lusos, Camões, em pessoa, convida-nos agora a conhecer o Museu que reencarna a epopeia. Convite aceite!

Pela mão do Pirata Pedro desvendamos a sala “Intentos e Eventos”. Por ordem cronológica e evolutiva expõem-se réplicas das embarcações utilizadas pelos portugueses, desde a barca em que Gil Eanes atravessou o Cabo Bojador, em 1434, ao Galeão, descrito pelo pirata como o “verdadeiro colosso dos mares”. Entre estes existiram o barinel, a caravela, a nau e a caravela de armada. Todas elas, no seu tempo, “eram a tecnologia de ponta”.

Na aventura de conhecer os mares, alguns instrumentos tornaram-se indispensáveis: a bússola, o astrolábio, o quadrante e a balestilha. E como a necessidade aguça o engenho, “os portugueses eram dos únicos a navegar em alto mar a saber onde estavam e para onde iam”, enaltece o Pirata.

Novos mundos ao Mundo  

É tempo de entrar no escritório do Infante D. Henrique, o grande impulsionador dos descobrimentos portugueses. Rodeado de mapas, o Infante define as novas investidas. Gil Eanes, o seu fiel escudeiro, assiste atento.

Nesta sala, denominada “Novos Mundos ao Mundo”, existem cinco painéis tácteis que reúnem informação por temas: “Navegadores”, “Mitos e Histórias” “Ciência”, “Arte e Cultura” e “Vida a Bordo”. De acordo com o Pirata Pedro, o último “é o mais lúdico”. Tocando numa parte do navio, surge o nome e função do tripulante que ali trabalha. É assim que descobrimos que o barbeiro não cortava cabelo…arrancava dentes!

Um globo 4D mostra a evolução da cartografia em dez datas compreendidas entre 1321 e 1800. Em curtas-metragens são projetadas seis das viagens mais importantes da época dos descobrimentos, entre elas a de Vasco da Gama à India, e a Circum-navegação de Fernão de Magalhães.

Vida a bordo

Como seria viver na coberta de uma nau? Numa réplica à escala real, vemos que existiam apenas dois fogões para 500 tripulantes! Um dos produtos mais consumidos eram os biscoitos (feitos da massa do pão cozida duas vezes e sem sal). Inesperadamente, o rato tornou-se um petisco a bordo ao perceber-se que quem os comia não contraía escorbuto. De tal forma que “chegaram a ser leiloados”, afirma o Pirata Pedro.

As naus regressavam da Índia carregadas de especiarias, como o cravinho e a pimenta. Já da China trazíamos porcelanas e sedas e do Japão chá e mobiliário lacado. Do país irmão o ouro e a cana-de-açúcar eram as maiores riquezas. Para cada tripulante sobrava cerca de 1,5 m2.

O marinheiro Martim, especialista em artilharia, demonstra como funciona um canhão e recorda: “os canhões portugueses tinham um alcance muito maior do que os dos mouros, com um só tiro dois navios eram furados e um afundado”!.

Antes de embarcar, é tempo de conhecer os estaleiros das embarcações: Miragaia e a Ribeira das Naus.

Todos a bordo!

O embarque é no “Porto”, cidade berço do Infante D. Henrique. Já em navegação, surge “Lisboa”, o “Norte de África” e a “Conquista de Ceuta”. Segue-se o “Mar Tenebroso”, diabolizado pelo Cabo Bojador, o abismo do Mundo até Gil Eanes o dobrar. Mas, depois, eis que surge o “Cabo das Tormentas”, habitado pelo terrível Adamastor! O mar revolta-se, o barulho das ondas é assustador. Mas o capitão encara o Monstro e vence-o: “Aqui ao Leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu” (Fernando Pessoa, “A Mensagem”). Prossigamos, pois, viagem.

Na “África Negra” descobrimos marfim, almíscar e povos mestres em caça. As “Florestas Tropicais” são um mundo novo para o descobridor das zonas equatoriais de África, da América e da Ásia. A partir da “Índia” globalizámos o comércio de especiarias e criámos cidades portuguesas noutro continente. “Timor e China” foram também portas de entrada na Ásia, com “Macau” a tornar-se uma meca portuguesa no oriente. No “Japão” chamaram-nos “Bárbaros do Sul”. O “Brasil” é a maior fonte de ouro e a base da economia nacional.

O “padrão dos descobrimentos”, marco de todas as terras que desvendámos, é o ponto final da viagem, assinalando que “ao imenso e possível oceano ensinam estas Quinas, que aqui vês, (…) que o mar sem fim é português!” (Fernando Pessoa, “A Mensagem”).

O World of Discoveries abriu em abril de 2014 em Miragaia, no Porto. Quanto ao número de visitantes, Ana Torres, diretora do Museu, afirma que “está dentro das expectativas para o primeiro ano de atividade”. Faz parte do espaço, para visitantes ou não, o Restaurante Mundo dos Sabores, com gastronomia típica das terras descobertas pelos portugueses, e uma loja de recordações, a “Sphera Mundi”.

 

Texto: Catarina Cascais

Fotografias: cedidas por World of Discoveries 

Artigo publicado originalmente em dezembro de 2015 no número 26 da revista Descla, edição impressa