As duas pedrinhas brancas estão lado a lado, prontas a desvendar o segredo: fortuna ou desgraça? Diz-se que tapam dois cofres, enterrados por uma moura muito rica, que aqui viveu e escondeu a sua fortuna para que ninguém a roubasse. Num, pôs todos os seus tesouros, no outro, uma perigosa mensagem, que causará a morte imediata e outros grandes males a quem abrir. A história alimenta o imaginário popular nesta vila do distrito de Viseu. Em cada geração, adensa-se o enigma e cresce a vontade de arriscar. Quem ousa?

O castelo ergue-se no cimo de um rochedo, imponente, de onde se abre a povoação em volta. De lá, avista-se tudo, ou parece. Estamos em Penedono, do latim penna do domno – a penha, ou fortificação, do senhor. A origem do edifício, que serviu de defesa e residência senhorial, perde-se na memória dos tempos.

O primeiro documento sobre a vila é de 960 e já fala do castelo. Uma primeira fortaleza terá sido construída pelos muçulmanos, dada a importância estratégica desta terra. Durante o século XI, entre avanços e recuos da luta cristã, Penedono mudou de mãos várias vezes. Só Fernando Magno conseguiu a reconquista definitiva, em 1064. Reza a lenda que os mouros foram atirados do alto do castelo, caindo num rochedo avermelhado em forma de escorrega, derramando rios de sangue, e por isso nunca ali cresceu musgo ou qualquer forma de vida.

Com o nascimento de Portugal, a fortaleza passou a integrar a jovem nação. D. Sancho sabia bem a importância estratégica da vila: incentivou o repovoamento através de foral, em 1195, e ordenou a reconstrução das suas defesas. No entanto, o atual formato do castelo remonta a finais do século XIV, quando D. Fernando incluiu a povoação no termo de Trancoso, que quis arrasar o edifício. Os homens-bons de Penedono revoltaram-se e conquistaram a autonomia.

A vila foi então doada ao nobre Vasco Fernandes Coutinho, que reergueu a fortaleza, alteando-a, e aí passou a viver com a família. No século XV, aqui terá nascido o neto, Álvaro Gonçalves Coutinho, “O Magriço”, herói da narrativa dos Doze de Inglaterra, imortalizado por Luís de Camões no canto VI d’Os Lusíadas. “Fortíssimos consócios, eu desejo/Há muito já de andar terras estranhas,/Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,/Várias gentes e leis e várias manhas./Agora que aparelho certo vejo,/(Pois que do mundo as cousas são tamanhas)/Quero, se me deixais, ir só por terra,/Porque eu serei convosco em Inglaterra.”

Onde está a chave?

Este é um insólito castelo-paço, feito em granito e xisto, de planta poligonal e rodeado por uma baixa barbacã, com um estreito adarve corrido. Na fachada principal, a porta é flanqueada por duas elegantes torres quadrangulares, encimadas por pequenas varandas, coroadas por ameias prismáticas, que se ligam por um passadiço superior, defendendo a entrada.

O interior é uma ruína. Na pequena praça de armas, as paredes, onde resistem as bases do travejamento de madeira dos pisos residenciais, são rasgadas por janelas quadradas com bancos de pedra. Ainda reconhecemos as escadas de acesso ao adarve, encostadas à muralha, mas não se vislumbra a estrutura do paço. “É de supor que a habitação nobre tenha sido genericamente de três andares, mas o conjunto carece de um estudo monográfico rigoroso que possa interpretar os muitos indícios conservados”, admite a Direção-Geral do Património Cultural.

Alexandre Herculano visitou o castelo em 1812 e já então o achou em ruínas. Em 1940, no âmbito da comemoração dos Centenários, promovida pelo Estado Novo, o edifício foi restaurado. “Alguns panos de muralha e torres, que se encontravam danificados, foram parcialmente reconstruídos, aproveitando-se a ocasião para lajear pavimentos e beneficiar os acessos”, sublinha a mesma fonte.

As últimas obras fizeram-se na década de 50, servindo para consolidar estruturas e permitindo que o castelo mantenha uma relativa genuinidade. “É o ex-líbris da História de Penedono, um símbolo da verdade dos penedonenses que demanda ser conhecido, sobretudo por ser insígnia da credibilidade do seu vetusto povo, de raízes mais antigas que a própria nacionalidade”, afirma o historiador João Ferreira, autor do livro Castelo de Penedono – mil anos de história.

Se o encontrar de portas cerradas, não desista: vá até ao pelourinho da vila. A chave está por ali, numa pequena loja.

Feira Medieval

Todos os anos, o centro histórico de Penedono recua no tempo por alguns dias. Nobres, monges, mercadores, almocreves, jograis e cavaleiros destemidos invadem as ruas que circundam o castelo, animadas com os pregões das vendedeiras, o som das ferramentas dos artesãos e os altos anúncios dos arautos. As tabernas voltam a encher-se de gente e de histórias. Em cada esquina, redescobrem-se traços, feitos e encantos que moldaram a identidade destas gentes.

Texto: Lino Ramos

Fotografia: Tiago Canoso

Artigo publicado originalmente em abril de 2014 no número 24 da revista Descla, edição impressa