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Era uma vez um livro roubado. Corriam os anos 40 quando um homem roubou um livro na Biblioteca de Quelimane, na Zambézia, que mais tarde haveria de emprestar ao filho, nas vésperas de este ir para a universidade.

Coimbra De Capa e Batina, de Carminé Nobre, contava as míticas histórias da boémia cidade dos estudantes. Rapidamente conquistou o coração de Ivan Dias e orientou a sua escolha de ir para a mais antiga universidade portuguesa.

Estudar é um verbo que o “pequeno” Ivan pouco conjugou nesse primeiro ano – quis mais viver aquelas histórias, entrar no ambiente de um livro que haveria de marcar toda a sua vida e a sua carreira, fazendo-o interessar-se pela televisão e pelo cinema, até se tornar realizador.

É este aprendiz e contador de histórias que está por trás de um projeto literário tão inovador quanto interessante na vila de Castro Marim, distrito de Faro, onde desde a passada sexta-feira é possível encontrar dezenas de livros espalhados pelas ruas, em pequenas réplicas da biblioteca municipal.

As cerca de 600 obras foram doadas por Ivan Dias ao município, que lançou o projeto “Um livro roubado”, numa tentativa de promover a leitura. Os transeuntes podem levar consigo um livro sem data de devolução marcada, substituindo-o por outro.

O objetivo é inspirar os futuros leitores a “roubarem” o livro sem precisarem de recorrer a um empréstimo formal, inspirados na história do doador, entregando-o quando já não precisarem dele.

“Daqui a um ano, vamos, com certeza, aumentar significativamente o número de leitores em Castro Marim”, garantiu a vice-presidente e vereadora da Cultura da Câmara Municipal, Filomena Sintra, aquando da apresentação do projeto, na última sexta-feira, lançando ao público o repto de partilhar as histórias que vai lendo com a #umlivroroubado.

“Estamos a fazer história hoje”, sublinhou o presidente da autarquia, Francisco Amaral, realçando que esta é a primeira vez em que “fazemos os nossos jovens encalharem na biblioteca”.

“Ato extremo de cultura”

A escolha de Castro Marim foi natural para Ivan Dias, que nesta vila filmou o seu primeiro trabalho como produtor e realizador independente, uma homenagem a um filho da terra, o guitarrista Paco de Lucía (1947-2014).

A ideia era ficar apenas alguns dias, recolher as imagens de vários quadros do quotidiano da terra, e voltar a Lisboa para as editar. Passou-se um ano. “Não mais deixei a magia de Castro Marim e o seu magnetismo. Voltei várias vezes para filmar, estar, produzir, admirar ou simplesmente ser…”, confessa o realizador, que acabou por decidir entregar uma parte substancial do seu quinhão de livros à biblioteca municipal da cidade. “Para que os livros que me inspiraram inspirem outros mesmo que para isso e num ato extremo de cultura os tenham que levar sem devolução marcada”.

Todos os livros de “Um Livro Roubado” estão sinalizados com um autocolante e um panfleto que contextualiza a iniciativa e convida o leitor a conhecer a Biblioteca Municipal, onde se encontra todo o fundo documental residente.

A próxima fase do projeto é ligá-lo à ação “Bookcrossing”, um conceito mundialmente conhecido que consiste na prática de deixar um livro num local público, para que outros o encontrem e possam lê-lo, “libertando-o” depois e assim sucessivamente.