Se todas as lendas têm uma verdade, Mourão não foge à regra: a primeira vila era mesmo ao pé do Guadiana, mas tinha poucas defesas e o bom senso ditou a mudança para um ponto mais alto. Daqui partimos para a história.

Mourão é sinónimo de reconquista, ou não tivesse sido tomado aos mouros, o primeiro inimigo de portugueses e espanhóis. Na época medieval, a titularidade da terra perde-se na indefinição de fronteiras entre os vários reinos advindos da reconquista cristã, ora pertencendo a Castela, ora ficando sob domínio nacional.

Sabe-se que foi doada aos cavaleiros da Ordem dos Hospitalários e D. Gonçalo Egas, prior dessa ordem, terá concedido a primeira carta de foral à vila em 1226, para incentivar o seu povoamento e defesa.

A grande dúvida é saber quando foi construído o castelo. A lápide da fundação aponta para o reinado de D. Afonso IV (séc. XIV), mas documentos anteriores já fazem referência ao edifício. O investigador Chantre Guerreiro acredita que foi a Ordem dos Hospitalários a dar o primeiro passo, como refere no estudo que publicou em 1963.

Mourão seria portuguesa em 1273, e, com base em documentos da época, “pode concluir-se que já tinha castelo”, nota o académico. Nesse ano, o rei espanhol Afonso X doou a terra à filha D. Isabel, Rainha de Portugal, para lhe agradecer o apoio nas lutas contra o filho D. Sancho. No século XIV, o mau estado do edifício levou D. Afonso IV, “O Bravo”, a construir a muralha exterior e a torre de menagem, com cerca de 20 metros.

Quarenta anos mais tarde, na crise de 1383-1385, basta ler a crónica de Fernão Lopes para saber que a vila e o castelo de Mourão, posto avançado na defesa da fronteira, desempenharam um papel de destaque ao lado do Mestre de Avis – futuro D. João I, Rei de Portugal –, tendo sido alvo de devastadoras incursões castelhanas. De resto, “o castelo teve sempre uma função essencialmente militar”, explica Cecílio Mendonça, do Posto de Turismo de Mourão.

Posição estratégica 

Situado na margem esquerda do rio Guadiana, o edifício impõe-se sobre a antiga vila medieval. Para lá dos muros, abre-se a vasta planície, com o castelo de Monsaraz, a norte, e a fronteira com Espanha, a este.

Daí vinham os inimigos e por isso construíram-se atalaias nos pontos mais altos, no cimo de outeiros, “verdadeiras sentinelas”, como refere Chantre Guerreiro. A mais alta tinha 238 metros. Assim se protegia a fortaleza e os agricultores podiam cultivar a terra em paz.

O castelo é envolvido por uma dupla cintura de muralhas, de planta poligonal, que denunciam uma curiosa mistura de pedras de mármore, granito e xisto, os dois últimos dominantes na região.

Num recorte de grande impacto visual e imponente beleza cénica, resistem na praça militar de Mourão seis torres quadradas, entrecortadas por cinco portas militares, algumas em arco ogival de estilo gótico, flanqueadas ou abertas em poderosos torreões.

Entre duas dessas torres, situa-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação das Candeias, refeita no século XVII, reconstruída no século XVIII, depois de ter sido parcialmente destruída pelo terramoto que também assolou Lisboa em novembro de 1755.

O próprio castelo de Mourão, localizado na freguesia com o mesmo nome, sofreu ao longo do tempo significativas mudanças, resultantes de várias reconstruções. As vicissitudes políticas e militares assim o ditaram. Hoje, são visíveis tais marcas, em especial as que aconteceram no reinado de D. Manuel I.

A sua posição estratégica, no extremo oriental português e ocidental espanhol, justificariam os mais de 2.000 reais gastos em restauros e remodelações que o rei “Venturoso” encomendou aos arquitetos Diogo e Francisco de Arruda, mestres das obras régias da comarca de Antre-Tejo e Odiana. É por isso que os elementos góticos e manuelinos aparecem lado a lado com inovações introduzidas pelos engenheiros militares no século XVII e XVIII.

D. Sebastião rezou em vão

Uma das muitas lendas que se ouvem contar pelos mais velhos reza que aqui terá pernoitado D. Sebastião, a caminho de Alcácer-Quibir. Assistiu a uma tourada real e pediu proteção à padroeira, a Senhora das Candeias. De pouco lhe valeu, está visto.

Com a Batalha de Alcácer-Quibir e o desaparecimento prematuro de D. Sebastião, tinha estalado uma crise no reino, com muitos candidatos a um “simples” lugar. Mourão apoiou Filipe II de Espanha, o que motivou sucessivos ataques ao castelo, com a população a sofrer os efeitos da guerra. Sessenta anos depois, escolheram o lado certo, o do “Restaurador” D. João IV.

O arquiteto militar francês Nicolau de Langres foi então encarregue de construir uma nova linha de fortificações. Para isso, ergueu quatro baluartes, revelins, fosso, alçapões e atalaias, dos quais sobram poucos vestígios. No interior da cerca, resistem sinais da antiga vila, da Casa da Guarda e dos Paços do Concelho.

O castelo haveria de ser classificado como Imóvel de Interesse Público por decreto publicado a 18 de julho de 1957. Durante o século XX, foi alvo de sucessivos retoques, insuficientes para apagar a imagem de ruínas. “Algumas peças da Torre de Menagem estão a precisar de restauro”, admite Cecílio Mendonça.

A autarquia de Mourão olha para o edifício e vê “grande potencial para uma intervenção de índole cultural, patrimonial e urbanística” e o espaço até “recebe eventos culturais, como concertos”, adianta o responsável, mas a verdade é que, depois de conquistas e reconquistas, parece entregue ao pó da História. Apesar de tudo, assume-se como ex-líbris do concelho.

O património arquitetónico é, de resto, um dos atrativos do município, onde se destaca o casario artístico do centro da vila, todo ele coberto de cal, debruado a xisto e encimado pelas grandes chaminés mouriscas, que prendem o olhar ao longo das ruas que dão acesso ao castelo. As gentes da terra souberam manter a identidade original.

 

Texto: Lino Ramos

Fotografia: Tiago Canoso

Artigo publicado originalmente em outubro de 2014 no número 22 da revista Descla, edição impressa