Fotografia: Tiago Canoso

Subimos, subimos mais um pouco, até que finalmente entramos na porta da vila de Monsaraz. Os carros estão do lado de fora, dentro das muralhas há pessoas a passear, igrejas, vários restaurantes e tascas, casas de artesanato e casas de habitação. Dos vários pontos da fortaleza pode ver-se a paisagem em redor, os verdejantes campos alentejanos. Poucas casas pontuam o horizonte. Este é uma das poucas fortalezas de Portugal que ainda tem atividades comerciais e pessoas a viver no seu interior.

Pertencente ao concelho de Reguengos de Monsaraz, o castelo de Monsaraz remonta ao século XIII, ao reinado de D. Afonso III. A Torre de Menagem (que foi um calabouço castelão) é posterior, do reinado de D. Dinis. A fortaleza tem quatro portas: a Porta da Vila, a Porta d’Évora, a Porta d’Alcoba e a Porta do Buraco. A Porta da Vila é o principal acesso da vila, tendo no seu interior duas marcas-padrão destinadas ao mercado do pano.

O castelo de Monsaraz é também conhecido como a Torre das 5 quinas, pois foi construído numa planta pentagonal. Foi habitado por diferentes Alcaides, pela câmara nobre de alcaidaria, que continua em bom estado de conservação. Havia também o casario do Alcaide e outros oficiais, cuja estrutura principal era a Torre de Menagem e as várias dependências alcançadas pela Porta Falsa. O castelo de Monsaraz foi, há semelhança de outros na região, ocupado até ao séc. XIX por cavaleiros e militares defensores das terras.

Segundo a História, o Alcaide Mor Gonçalo Rodrigues de Sousa, assim como tantos outros fidalgos portugueses vinculados aos seus aristocráticos privilégios, aderiu ao partido do rei de Castela. Foi neste ambiente que a vila se revoltou sob o comando de Gonçalo Rodrigues de Sousa e passou a ser adversária do levantamento popular do Mestre D` Avis. Nuno Álvares decidiu tomá-la pondo em prática uma estratégia que deu origem a uma lenda lembrada pelos habitantes mais idosos de Monsaraz. No verão de 1384 ordenou aos seus escudeiros que de noite se escondessem junto às muralhas de Monsaraz, mandando soltar uma manada de vacas no Vale do Limpo. Quando de manhã, o Alcaide pequeno de Monsaraz as foi recolher para as introduzir na vila, a fortaleza desprotegida com as portas abertas, permitiu a entrada pelos escudeiros ocultos no arrabalde e tomada sem a perda de uma gota de sangue, conta Maria de Jesus Cardoso Gamado, técnica do Município de Reguengos de Monsaraz.

Nos dias de hoje a vila de Monsaraz recebe alguns eventos, tais como Monsaraz Museu Aberto – Bienal de Cultural, que teve a primeira edição em 1986. É na Praça de Armas que decorrem os concertos, na sua maioria noturnos, torneios medievais e outras recriações históricas que desde a década de 80, fazem parte da programação cultural do concelho de Reguengos de Monsaraz. Incluída nas Festas em Honra do Sr. Jesus dos Passos, a tradicional corrida de toiros realiza-se em data fixa no 2º fim de semana de setembro. Tradição que remonta ao séc. XIX.

Curiosidade

Não se sabe ao certo a origem do termo Monsaraz, embora se coloque a possibilidade da decomposição do termo em Mon Saraz. A palavra Saraz pode derivar de Xarez ou Xerez que equivalia, durante o domínio muçulmano, à forma arábica Saris ou Sharish. Monsaraz pode significar Monte Xarez ou Monte Xaraz, isto é, monte erguido no coração de uma terra nas margens do Guadiana, antigamente povoada por um impenetrável brenhal de estevas (ou xaras) e que, pela excelência de condições estratégicas – posição de altura com cobertura defensiva de um grande e importante rio – recomendava, naquele sítio de difícil acesso, a fundação de um povoado, quase naturalmente defendido.

Texto: Ana Margarida Gomes

Fotografia: Tiago Canoso

Artigo publicado originalmente em março de 2014 no número 20 da revista Descla, edição impressa