Fotografia: João Freitas

Nas paisagens longínquas onde a nossa memória já não alcança, encontrava-se cativa pelos Mouros, senhores incontestados do burgo trancosano, a bela e formosa Iberusa Leoa. Esta lenda que agora vos narro passou-se aquando das conquistas de D. Anfonso Henriques, na ânsia de expandir o seu jovem reino. Desejoso de ver as suas terras livres do jugo árabe, aquele valoroso rei tinha jurado a si mesmo libertar e tomar o Castelo de Trancoso, onda a bela prisioneira se encontrava encarcerada sob o olhar de quatro valorosos e combativos Mouros.

Durante a sua clausura, Iberusa espreitou por uma fresta da torre do Castelo e viu as hostes de D. Anfonso Henriques, que iam investindo e ganhando sucessivos confrontos, pelo que a jovem decidiu inquirir aos seus carcereiros sobre qual o destino que o alcaide lhe tinha reservado, ao que um dos guardas respondeu friamente que esta seria decapitada na manhã seguinte. Iberusa, devastada com o prenúncio da sua morte, pediu aos quatro guardas que lhe fizessem companhia até de manhã.

Os carcereiros assentiram ao seu pedido e assim o fizeram, enquanto a interminável espera para o rumo da sua sorte conduzia Iberusa a contar histórias da sua fé. Iberusa contou histórias dos milagres de Deus e da vida pobre que Jesus levava na Terra. Ouvindo a jovem falar com tanto encanto da sua fé cristã, os guardas ficaram mesmerizados e não se aperceberam que a batalha cessara, nem que D. Afonso Henriques entrara no castelo.

O guerreiro monarca, ao subir à torre do Castelo de Trancoso, ficou estarrecido ao ver a bela cativa narrando calmente histórias a quatro embevecidos Mouros. Como promessa pela sua salvação, Iberusa prometera a Nossa Senhora edificar uma capela em sua honra. E com a ajuda dos Mouros, agora convertidos, edificou a capela da Nossa Senhora da Fresta, que permanece intocável até aos nossos tempos.

Trancoso foi uma das mais importantes vilas medievais portuguesas, considerada um ponto nevrálgico para o avanço da reconquista cristã. Situado num planalto próximo da nascente do rio Távora, a posição dominante do castelo atual, com os seus quase novecentos metros de altitude, faz-nos crer que, desde sempre, essa situação foi considerada pelos povoadores de todas as épocas.

A primeira referência conhecida do Castelo de Trancoso remonta ao séc. X, mais precisamente ao ano de 960, num documento de doação testamentária que D. Flâmula Rodrigues – filha de Rodrigo Tedoniz, o responsável pelo povoamento e ocupação daquela zona da Beira-Alta – entrega o Castelo de Trancoso, juntamente com os Castelos de Moreira de Rei e de Terrenho ao Mosteiro de Guimarães.

Mais tarde, em pleno séc. XIII, este Castelo viria a ser fortemente assediado pelas forças árabes, porém a pronta ação de D. Afonso Henriques evitou que estes voltassem a tomar e conquistar esta fortaleza.

Foi neste Castelo que D. Dinis, a 26 de junho de 1282, recebeu a sua esposa, a Rainha Santa Isabel. Mais tarde, inserido no contexto do Tratado de Alcanices (1297), a fortaleza foi alvo de uma reestruturação, tendo sido ampliada a cerca da vila passando esta doravante a estar guarnecida por diversos torreões de planta retangular. Data também deste ano a edificação das belíssimas Porta d’El-Rei e Porta do Prado, bem como a reformulação da malha urbana da vila, que é considerada como um dos melhores exemplos do urbanismo gótico em Portugal.

Nos finais do séc. XIV, na conjuntura da crise de sucessão de 1383-1385 – da qual saíria coroado rei D. João I, Mestre de Avis – os arrabaldes de Trancoso foram saqueados e pilhados por tropas Castelhanas a caminho de Viseu. Contudo, quando o exercito castelhano retornava, os alcaides de Trancoso, Linhares e Celorico foram ao seu encontro, travando-se assim a Batalha de Trancoso. Em julho de 1385 as tropas castelhanas voltam a invadir novamente Portugal, levando a que o monarca D. João I a reforçar as defesas do Castelo de Trancoso, tendo esta fortaleza desempenhado um papel preponderante nas invasões castelhanas entre os anos de 1396-1398.

A valentia e patriotismo das suas gentes continuaram a mostrar-se ao longo dos séculos seguintes, com a sua participação em vários episódios de evidente relevo histórico, tais como a Restauração de 1640, a Guerra da Sucessão de 1704, as Invasões Francesas entre 1807 e 1810 ou a Revolução Liberal de 1820.

A fortaleza foi alvo de algumas obras de recuperação e restauro, sem nunca ter perdido os traços Românicos e Gótico, bem visíveis ao longo da muralha que cerca a vila medieval. Tendo como principais pontos de referência a Torre de Menagem, as suas cinco torres quadrangulares e a sua magnifica cintura amuralhada que envolve toda a vila, sendo apenas rasgada por cinco belíssimas portas e dois postigos, esta belíssima obra de arquitetura militar é um dos exemplos vívidos da construção de Portugal.

 

Texto: João Freitas

Artigo publicado originalmente em março de 2013 no número 15 da revista Descla, edição impressa

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