
O lince ibérico vai voltar à Serra da Malcata, no máximo, daqui a cinco anos. E a reserva natural vai continuar a ter caça. A informação foi avançada à agência Lusa pelo do ministro do Ambiente, adiantando que, para isso, vão ser criados pequenos cercados de coelhos bravos, determinantes para a sobrevivência dos felinos.
Em maio, quando abrem as próximas candidaturas do POSEUR – programa operacional sustentabilidade e eficiência no uso de recurso, no domínio da conservação da natureza, vai ser apresentada uma candidatura para a reintrodução da espécie naquela reserva natural, revelou João Matos Fernandes.
“A expectativa de sucesso que temos é de em três, quatro, cinco anos podermos ter condições para que o lince possa voltar à Serra da Malcata”, adiantou o ministro, para quem “é fundamental que também o Estado cumpra a sua função”. Além do coelho, o governante diz que vai ser importante “fazer alguns pequenos prados, com mosaicos na paisagem que tenham zonas de refúgio, tanto para o lince como para as presas, em comum e em associação com a gestão daquele espaço como uma zona de caça”.
Em declarações à Antena 1, Matos Fernandes revelou que a caça – recentemente autorizada pelo governo na Serra da Malcata após 23 anos de interdição – vai ser importante para reconstituir as condições naturais que vão ajudar à sobrevivência dos felinos. O ministro lembrou que praticamente quase todas as reservas naturais do país têm caça ordenada, com destaque para o Vale do Guadiana, primeiro espaço onde o lince ibérico foi reintroduzido.
Desde 2005, existe, além disso, um plano de ordenamento territorial na Serra da Malcata que “claramente aponta a caça como uma atividade económica importante também para a melhoria do habitat”, nomeadamente pela introdução de espécies autotones, como coelhos bravos, o alimento do lince.
A existência de alimento, ou seja, coelhos bravos, é fundamental para a decisão de libertar os linces. A densidade de coelhos bravos por hectare recenseada na Serra da Malcata é de 0,29 por hectare quando o programa LIFE, que tem financiado a reintrodução do lince na Península Ibérica, impõe um mínimo de dois animais por hectare. No Vale do Guadiana, a densidade é da ordem dos 3,5 coelhos bravos por hectare.
O governante disse esperar que, dentro de um ano, seja apresentado um plano de caça para a reserva natural, que tem o lince ibérico como símbolo. A primeira espécie deverá ser o javali, em outubro de 2017. Três anos depois, o corso e o veado. De fora, ficam o coelho e a perdiz.
Em janeiro, quando revogou a portaria que interditava a caça da Serra da Malcata, o ministério do Ambiente justificou decisão com com as “reconhecidas vantagens do ordenamento cinegético” e com a “importância daquela atividade enquanto instrumento de utilização sustentável dos recursos naturais na política de ordenamento do território e nas diferentes políticas setoriais”.
Na portaria, publicada em Diário da República a 8 de fevereiro, o Governo explicava que, “volvidos 34 anos desde a classificação da Reserva Natural da Serra da Malcata, e 23 anos desde a publicação daquela portaria, a dinâmica dos ecossistemas da área abrangida vem demonstrar a importância desta atividade enquanto instrumento de promoção da articulação e integração dos objetivos de conservação e de utilização sustentável dos recursos naturais na política de ordenamento do território e nas diferentes políticas setoriais”.
O ministério do Ambiente esclareceu na altura que a decisão abrangia apenas a zona sul da Serra da Malcata, mas não se livrou das críticas dos ambientalistas, assim como de alguns partidos, como o Partido das Pessoas, Animais e Natureza (PAN), os Verdes ou o Bloco de Esquerda.
O PAN anunciou mesmo a intenção de chamar ao Parlamento “com urgência” o ministro João Matos Fernandes, considerando que se trata de um “retrocesso civilizacional que carece de fundamentação científica e política”.
“No âmbito da recente decisão do governo que aprovou uma portaria que volta a permitir caçar na zona sul da Reserva Natural da Serra da Malcata, após 23 anos de interdição desta atividade num dos habitats históricos de ocorrência de lince-ibérico (uma espécie em risco de extinção), o PAN quer ouvir no Parlamento, com caráter de urgência, o Ministro do Ambiente e Mobilidade, João Matos Fernandes, sobre esta decisão que o partido considera um crime desastroso contra a natureza”, explicou o partido numa nota enviada aos jornalistas.
O PAN, que nas últimas legislativas elegeu o primeiro deputado, André Silva, lembrou que a caça já é permitida na maior parte do território português, pelo que não é necessário criar-se mais áreas. Esta quinta-feira, às 16:00 horas, o PAN organiza na Assembleia da República uma audição pública sobre o regime cinegético.
“Para a discussão de um tema que não tem sido apresentado à sociedade portuguesa de uma forma realista e integrada”, diz o partido, vão ser convidados vários especialistas, entre eles, o Biólogo e Professor na Faculdade de Ciências da Universidade Nova, Luis Vicente, a Quercus, o GEOTA, “entre outras entidades que estão a ser convidadas para participar no debate”.


























