Os Jogos Olímpicos Rio'2016 realizam-se entre 5 e 21 de agosto. Fotografia: DR
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Oh! arcaico espírito imortal, imaculado pai da
beleza, da grandeza e da veracidade,
desça, se faça presente e faça brilhar aqui e
mais além, na Glória de sua Terra e Céu.
Na corrida, na luta e no arremesso, faça
brilhar o ímpeto das nobres competições,
modelando com aço e dignidade o corpo,
coroando-o com a imperecível rama do louro.
Campos, montanhas e mares se vão contigo tal
como um alvi-rubro magno templo, para o
qual se conduz aqui como seu peregrino, oh!
arcaico espírito imortal, cada nação.

Há precisamente 120 anos, no dia 6 de abril de 1996, tocava em Atenas o hino dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna. Durante dez dias, 245 atletas de 15 países disputaram o ouro em nove modalidades. Em agosto, no Rio de Janeiro, hão de ser mais de 10 mil, em 42 desportos, e quase todas as nações do mundo vão estar representadas naquele que é considerado o maior evento desportivo do mundo.

Os gregos da antiguidade clássica já se queixavam de que o teatro era uma arte em decadência e o barão francês Pierre de Coubertin, profundo conhecedor dos clássicos helénicos, temia que, em finais do século XIX, o desporto seguisse o mesmo caminho. “O espírito mercantil ameaça invadir os círculos desportivos”, alertava em 1890, notando que “o desejo de vencer é muitas vezes alimentado por algo que não seja a ambição de uma distinção honrosa”.

“Se não queremos que o desporto degenere e morra mais uma vez, temos que purificá-lo”, dizia o francês, que, quatro anos depois, durante o Congresso de Paris por si organizado, viu renascer as Olimpíadas. Essa primeira competição da era moderna decorreu na capital grega, então uma pequena cidade de 130 mil habitantes, herdeiros do espírito dos Jogos da antiguidade que durante séculos se celebraram no fecundo vale de Olímpia, não muito longe de Atenas.

A cerimónia inaugural foi presidida pelo rei Jorge I da Grécia no Estádio Panatenaico, reconstruído com mármore do Monte Pentélico – tal como o havia edificado há mais de 20 séculos, Herodes Ático -, com a contribuição preciosa de Jorge Averoff, milionário e mecenas grego.

O país anfitrião dos primeiros Jogos Olímpicos modernos foi o que conquistou mais medalhas, 45, entre as 15 nações representadas, que incluíam ainda Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Irlanda, Hungria, Dinamarca, Áustria, Suiça, Austrália, Chipre, Egipto, Itália, Suécia e Esmirna, uma cidade do Império Otomano. Os 245 atletas competiram em nove modalidades:  atletismo, ginástica, ciclismo, esgrima, tiro, natação, ténis, halterofilia e luta.

Estádio Panatenaico, construído em 536 a. C., acolheu os Jogos Olímpicos em duas ocasiões, 1896 e 2004. Foto: Domínio Público/Creative Commons
Estádio Panatenaico, construído em 536 a. C., acolheu os Jogos Olímpicos em duas ocasiões, 1896 e 2004. Foto: Domínio Público/Creative Commons

O saltador James Connoly ficou para a história como o primeiro campeão olímpico em 1500 anos, mas a grande estrela dos Jogos foi o grego Spiridon Louis, que venceu a maratona em 2h55m, uma prova para a qual havia treinado durante um ano naquele campo. O feito deixou em êxtase as 150 mil pessoas que nesse último dia de competição encheram o estádio, cantando a grandeza da Grécia e das suas gentes.

Desde então, a cada quatro anos realiza-se mais uma edição daquele que se foi convertendo num evento desportivo planetário, momento de união entre todos os povos, só interrompido durante as duas guerras mundiais, em 1916, 1940 e 1944, e no qual participaram, até hoje, cerca de 145 mil atletas.

Os Jogos Olímpicos cresceram em tudo: número de países, desportistas, modalidades e provas – foram criados os Jogos Paralímpicos, de Inverno e da Juventude -, mas também publicidade, corrupção ou doping, tornando-se mesmo alvo de ataques terroristas, como aconteceu em 1972, em Munique, quando o grupo palestiniano Setembro Negro fez reféns e assassinou 11 membros da equipa olímpica de Israel.

Nos últimos Jogos Olímpicos, Londres 2012, 10.568 desportistas – 44% deles mulheres – disputaram 28 modalidades, representando 2014 países. A competição gerou um impacto económico de cerca de 6 mil milhões de euros e foi vista, pela televisão e Youtube, por cerca de 4.800 milhões de pessoas em todo o mundo.

Quando, a 5 de agosto, as comitivas de cada país pisarem o Estádio Olímpico do Rio de Janeiro para a 28ª edição dos Jogos, certamente terão na cabeça o lema da competição: Citius, Altius, Fortius“, expressão latina que que significa “mais rápido, mais alto, mais forte”, bem como as célebres palavras de Pierre de Coubertin: “a coisa mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas participar, assim como a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem”.