Fotografia: ICNF

Na correria da auto-estrada, olhamos para a serra e imaginamos o saurópode a devorar uma árvore do alto do seu pescoço infinito, desconfiado pela abundância e atento aos predadores. A realidade, longínqua, está mais próxima do que pensamos. No Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, há um impressionante registo fóssil do período Jurássico: as pegadas de alguns dos maiores seres que jamais habitaram a Terra, conservadas ao longo de 175 milhões de anos na laje calcária que caracteriza esta região.

A jazida da Pedreira do Galinha contém a mais longa e antiga pista de dinossauro saurópode conhecida até hoje, com 147 metros. Centenas de pegadas estão espalhadas por cerca de 20 trilhos deixados por estes grandes animais quadrúpedes.

O cenário, esse, é bem diferente. Há poucos cursos de água à superfície, mas, em contrapartida, um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea. A erosão cársica levou à formação de poljes, campos de lápias, lapas e algares, uvalas e dolinas, curiosas depressões fechadas no fundo das quais surgem pequenas lagoas.

Um barulho de fundo denuncia a nascente dos Olhos de Água do rio Alviela, uma das mais importantes do país – chega a debitar 1,5 milhões de metros cúbicos por dia no pico da cheia, o que equivale a 17.000 litros por segundo. Até há bem pouco tempo, esta era uma das principais fontes de abastecimento de água à cidade de Lisboa.

O Complexo de Nascentes do Alviela oferece uma experiência única de contacto com a natureza, num ambiente bucólico de rara beleza: aqui podemos repousar na praia fluvial, descobrir os caminhos que a água percorre ou praticar desporto ao ar livre.

Com sorte, avistamos uma das espécies que habitam este parque com 38.900 hectares: gato-bravo, geneta, raposa, texugo, doninha, víbora-cornuda, cobra-de-pernas tridáctila, salamandra, tritão, morcego ou uma das mais de 100 aves que aqui nidificam, com destaque para o bufo-real e a gralha-de-bico-vermelho.