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Há alguns anos estava a almoçar com duas polacas que, como eu, tinham ido estudar Jornalismo para Coimbra. Não me lembro o que comemos, mas recordo que a certa altura uma delas manifestou o seu espanto pela forma de ser dos portugueses: gente que leva a vida sem rotinas apressadas, apreciadores de boa comida e bebida, hospitaleiros, calmos. Uns bons vivants. À maneira daqueles homens do século XIX que passavam tardes a beber conhaque e assistiam a corridas de cavalos? Mais ou menos isso. O principal era a camaradagem. Limitei-me a esboçar um sorriso, contestando, no entanto, que nem todos cabiam na descrição. Sem sabermos, estávamos a falar de dieta mediterrânica. E no local mais apropriado – a mesa.

Reformulo: falávamos da dieta mediterrânica portuguesa. Os espanhóis, aqui ao lado, são diferentes, mais vivos. Mas a essência é a mesma. Igual convivência, a mesma relação com a terra, a mesma forma de cozinhar. As mesmas tradições. Até nas doenças somos parecidos. O Mediterrâneo dá nome ao mar junto ao qual se ergueu a civilização europeia. Portugal não é banhado por ele, mas não deixa de pertencer ao clube. “Mediterrâneo por natureza, atlântico por posição”, escreveu Pequito Rebelo no livro A Terra Portuguesa. O que define esta dieta é a cultura. E aí, são todos iguais: portugueses, espanhóis, gregos, cipriotas, croatas, marroquinos e italianos.

Desde Dezembro de 2013 que esta forma de ser e de estar é reconhecida pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade. Não se resume a um “regime”, a um padrão alimentar. É um estilo de vida com mais de mil anos. Foram séculos e séculos a recriar e aperfeiçoar as formas de produzir e os modos de convivência associados a uma alimentação. E isso haveria de ser reconhecido, muito tempo depois, como equilibrado e saudável.

Os portugueses do norte continuam a preferir o louro e a salsa, os do sul optam por orégãos e coentros. O clima também é diferente, assim como os terrenos: não é preciso ser agricultor para saber que o calcário é melhor de trabalhar que o que granito e o xisto. Se o vinho não é consumido nos países muçulmanos da margem sul do Mediterrâneo, como é que pode fazer parte da dieta? E a carne de porco, não é proibida pelo Corão? E os cereais, não ouvimos desde a escola primária que o país é deficitário? O nosso peixe vem do Atlântico, não do… Mediterrâneo.

Oliveira, o fio-condutor

Se dependesse de climas ou geografias, não haveria dieta mediterrânica. E da mesma forma que há particularidades indeléveis, outras há que são passageiras. É um estilo de vida em constante mutação. Os muçulmanos do Magrebe não bebem vinho, mas a região já foi habitada por povos que o consumiam. A carne de porco é importante, mas raramente a produção de suínos foi uma cultura intensiva em Portugal – preferimos o borrego e o carneiro. Nem todo o Mediterrâneo come o mesmo pão, nem da mesma forma: os italianos usam muito os cereais nas massas; já os portugueses têm um autêntico receituário baseado nele – sopas, migas, ensopados, doçaria. Fazemos doces à base de açúcar e ovos, outros usam mel e frutos secos. Mas há um traço comum: a doçaria está associada à festa. Na dieta frugal, também cabe o excesso.

Os Estados Unidos, o Chile ou a África do Sul têm climas como os nossos, mas não tantas oliveiras – elas são o fio-condutor do espaço mediterrânico, esse “mar entre as terras” que é mais do que um mar. É o berço da civilização grega, da polis, de novas formas de organização social e política. E a Península Ibérica, entre o Mediterrâneo e o Atlântico, é um espelho romano, árabe e cristão, um destino das Descobertas cheio de integrações e exclusões. Falar da dieta mediterrânica é falar de um modo de ver, pensar e agir, um modo de vida comunitária que transformou espaços naturais em terrenos lavrados de vinhas e olivais, pomares e figueiras e depois desenvolveu novas tecnologias de produção, transformação e transporte, mudando o comércio e a navegação. É o ponto de partida das três religiões monoteístas. Uma forma de vida comunitária que estruturou sistemas mentais e sociabilidades, originou expressões simbólicas, culturais e artísticas marcadas pelos ciclos astrais, biológicos e agrários, ainda hoje muito presentes nas festas populares por todo o Mediterrâneo. A mesa é quase um lugar sagrado, onde todos se encontram no fim da labora amarga da terra, é um lugar de transmissão do conhecimento, da procura da verdade.

Hipócrates: come bem e faz exercício

O cientista norte-americano Ancel keys ficou intrigado quando na década de 70 do século XX descobriu que os povos da bacia mediterrânica resistiam melhor à doença coronária. Estava muito focado na sua especialidade, a nutrição, daí que a problemática do “estilo de vida” tenha ficado para segundo plano. Mas a sua recuperação, alguns anos depois, não foi mais do que uma viagem aos primórdios do conhecimento. Os gregos foram os primeiros a tomar consciência. Hipócrates, ou melhor, a escola hipocrática, marca o nascimento das ciências e é aí que se adquire consciência da definição e controlo do que se come, bem como do exercício físico que se deve fazer. Esta é, aliás, uma das principais vertentes da dieta mediterrânica – não basta comer bem e conviver, é preciso mexer-se.

Quando se fala em dieta mediterrânica, muitos continuam a pensar apenas em comida, numa “comida pobre”. Não poderiam estar mais enganados: não só é das mais completas, como parece estar a ganhar força na economia familiar, com o crescente uso de papas de milho e leguminosas. Uma prova de que é possível alimentar-se bem e ter prazer nisso. Essa ignorância mostra que ainda há um caminho a percorrer, que passa pela educação: mais do que sentar-se à mesa, deveríamos olhar para os antigos e ver como souberam recriar uma comida de grandes efeitos a partir de poucos recursos. Não é um regresso ao passado, à simples agricultura de subsistência, mas um despertar para o potencial deste modo de estar na vida. É claro que isso implica respeitar os ciclos da natureza, aproximar a produção da comercialização, estar próximo, comer em conjunto. Um desafio para a sociedade actual, uma aposta ganha para um pequeno país.

 

Texto: Lino Ramos

Artigo republicado da edição 26 da revista Descla, de Novembro de 2016