Fotografia: CM Coimbra
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Se a obra dos grandes artistas se confunde com a realidade, a de Miguel Torga ainda mais. Nenhum como ele escreveu tanto sobre Portugal e os portugueses. Escritor, médico e poeta, foi um trabalhador incansável das artes da escrita, fazendo jus à fama dos seus conterrâneos, que no Douro trabalharam de sol a sol, carregando cestos de setenta e mais quilos encosta acima, encosta abaixo, com os pés, descalços, a testarem o granito que ardia. Em tudo isto havia muito músculo, muita dor, força, raiva, bastante pobreza e alguma aguardente. Torga era um deles, nasceu no campo e nele trabalhou ainda novo, quando esteve no Brasil, na quinta de um tio. O que escreveu não poderia, pois, ser senão “rude, brutal”, como diz o sociólogo António Barreto, seu amigo e confidente.

É por isso que nenhum português, por maior leitor que seja, fica indiferente ao que este serrano, como lhe chamou sem maldade outro amigo, discorreu sobre o país e os que nele vivem. Torga foi de norte a sul, traçou o perfil de cada terra, de Trás-os-Montes, “eternidade paralisada”, ao Algarve, “um dia de férias na pátria”. A viajar ou no consultório, captou o ser e o viver português, e tentou dar-lhe um sentido. Vinte anos depois da sua morte, as palavras mantêm-se atuais? O diagnóstico que o médico traçou, de estetoscópio amarrado aos cinco sentidos, está correto? Portugal não é o mesmo, sabemos, nem os portugueses. Ou será que são?

Para perceber a atualidade das reflexões de Torga vamos primeiro pegar em alguns acontecimentos políticos e sociais deste ano e, através de escritos do autor, tentar perceber como ele os teria analisado. Depois, veremos o que escreveu sobre o seu país, os seus conterrâneos e determinados assuntos que continuam a marcar o presente, e veremos se tais observações permanecem atuais.

Dezassete de janeiro de 2015. O secretário-geral do PS, António Costa, defendeu a regionalização de Portugal como forma de “avançar na descentralização”. Se Miguel Torga fosse vivo, haveria de querer fazer uma pergunta retórica ao líder socialista: o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?

Torga era um patriota, não dos cegos, mas dos que conhecem muito bem a História do seu país e se batem por algo mais do que palavras atiradas ao vento. Avesso à União Europeia, certamente não ficaria calado com tudo o que lhe aconteceu desde 2008 e em especial no último ano, quando estalou uma guerra entre as instituições comunitárias e o Syriza, partido que venceu as eleições gregas num claro desafio aos poderosos do velho continente. A revolta contra a subserviência às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve… parece resumir na perfeição o sentimento de quantos desde a primeira hora se bateram pela vitória helénica.

O referendo de 5 de julho, no qual o povo grego disse “não” a mais austeridade, que mais não foi do que um não a esta Europa, regozijaria o poeta transmontano, que em 1992 jubilou com o não da Dinamarca ao tratado fundador da UE. Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa, sentenciou, antes de ver os nórdicos ratificarem o documento após demoradas negociações que os deixaram fora da moeda única.

É escusado teimar! A ser banal, a dizer banalidades e a pensar banalidades é que o português é português. Mas o grande foco de Miguel Torga sempre foi o seu país e os portugueses. Viajou por todo o lado, detendo-se aqui e ali para conseguir a melhor descrição, o melhor diagnóstico. Conheço muito bem Portugal, de cima para baixo. Foi, a par de Aquilino Ribeiro, o grande retratista de Portugal, das suas paisagens e dos seus costumes, dos seus defeitos e feitios. Não temos civismo, não temos riqueza, falta-nos juízo, mas deu-nos Deus um caleidoscópio único no mundo para suprir o resto. O resto, que é só amargura.

O tom amargo com que escreve é o mesmo que sente quem vive na “província”, fora da grande capital, e de quem nesta habita e sabe viver numa espécie de oásis. Um convívio mais íntimo com a nata do mundo, uma situação de privilégio em relação à cultura e ao gosto, tornam penoso o contacto com maneiras terrosas e analfabetas. A outra face da moeda é a centralização que o processo tem acentuado, fazendo convergir todo o esforço do país para a sede do poder, aviva feridas mal cicatrizadas e abre outras de maior purulência ainda (…) É por isso que a nação não morre de amores por Lisboa e sabe-se que Lisboa lhe paga na mesma moeda.

Torga tinha uma explicação para este estado de coisas, ou assim pensava. Talvez mesmo lá no fundo, no fundo da desavença, não haja senão um sentimento de culpa comum, a mesma mágoa inconfessada de uma desgraça que abrangeu toda a nação, mas que tem na capital o seu estigma indelével. Uma espécie de recalcamento freudiano que espera a sua hora de consciencialização. É que os portugueses, por algum tempo legítimos cidadãos do mundo, deixaram escapar o futuro, ficando “a ver passar ao longe, a fumegar, as embarcações alheias, e a cantar, ao som de uma guitarra, loas à fatalidade.

De tudo o que fomos, restam-nos apenas a paisagem e a língua, o chão e o verbo, haveria de concluir o escritor no olhar a frio ao espelho da vida, exercício raramente tentado pelos seus compatriotas. Temos de conhecer a nossa terra, mas conhecê-la por dentro, sem preconceitos de nenhuma ordem. Amá-la, sim, mas objectivar-lhe tanto quanto possível os defeitos e as virtudes, para que o nosso afecto seja profundo e progressivo.

Sophia de Mello Breyner escreveu um dia que “Miguel Torga é um poeta em que um país se diz”, mas ele foi muito mais do que isso. Aquele homem de difícil trato e bondade infinita foi durante muito tempo a consciência de um povo. Morreu com duas “convicções arreigadas”: a de que não há terra mais bela do que a lusitana e outra tão infeliz.

 

Texto: Lino Ramos

Artigo republicado da edição 26 da revista Descla, de Novembro de 2015