Automotora do Núcleo Museológico de Machinata do Vouga, em Águeda
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Entramos em passo ligeiro na estação. Ainda temos de comprar bilhete e o comboio já não tarda. Saímos ainda mais apressados, mas nem sinal. Deve estar atrasado. São quase oito da noite e o cais vazio. Atravessamos a linha e, já do outro lado, o edifício parece-nos ainda mais pequeno. É uma dessas estações antigas que teimam em resistir às novas linhas da arquitectura, mantendo o desenho original, de 1911. Estamos em Águeda, ponto de partida da Rota da Bairrada, que teimámos em percorrer de comboio. O destino é Coimbra. Chegaremos lá?

A pergunta justifica-se: corremos o risco de nos perdermos nesta viagem por uma das regiões mais ricas e diversificadas de Portugal. Para conhecer a Bairrada, teremos de ir à praia e à aldeia recuperar tradições, visitar museus subterrâneos, reviver batalhas, aprender a arte da vindima, descobrir caves e adegas centenárias, treinar a memória olfativa, provar o leitão e a chanfana, antes de nos perdermos de Amores da Curia. Quando o cansaço falar mais alto, de certeza que vamos encontrar uma terma, um spa, ou então um bonito moliceiro para atravessar a ria. Uma certeza dá-nos mais força: vamos em direção ao conhecimento.

A “viagem” começou bem cedo, no maior lago artificial da Europa, na companhia de lontras, sáveis, maçaricos e rãs ibéricas, vigiados lá do alto por um belo milhafre-preto. Na Pateira de Fermentelos, paraíso de habitats, ecossistemas e espécies com estatuto de protecção internacional, existe uma “piscina da reflexão” que convida os visitantes a percorrer as margens em estreito contacto com a natureza, passear de barco numa bateira ou simplesmente repousar na sombra do parque, contemplando a paisagem que se abre para o lago.

Águeda não tem a importância de outros tempos, mas mantém uma beleza genuína, própria das cidades que parecem vilas. À sua volta resiste o Portugal antigo, espalhado por aldeias como a de Lourizela, cujas casas, quase todas em xisto, são o orgulho dos habitantes e a perdição dos turistas. Aqui perto, na Trofa, há uma pequena amostra da Bairrada no Museu Etnográfico da Região do Vouga, que guarda trajes e objetos de uso doméstico e agrícola, e mais para norte, no Núcleo Museológico de Machinata do Vouga, acumula-se o espólio das companhias ferroviárias nacional e Vale do Vouga. Nesta terra de bom vinho, não poderia falhar a visita às Caves Primavera, onde podemos seguir todo o processo de vinificação, da uva ao néctar, passando pelas linhas de enchimento.

Chegámos tarde a Macieira de Alcôba: o homem já entrou no forno comunitário para depositar a “broa do milagre”, com 50 quilos. Conta a lenda que num dia de romaria e quando a procissão estava a passar, um homem tirou uma flor do andor e, com ela presa na boca, entrou no forno para lá colocar o pão a cozer. Embora descalço e sem proteção, não sofreu qualquer queimadura, e a flor saiu de lá com a mesma frescura com que entrou. Este feito foi considerado um milagre, e o  pão cozido neste forno passou a ser considerado sagrado, sendo distribuído pela população e guardado durante todo o ano, a fim de ser dado aos doentes para ajudar na cura de certas maleitas. A tradição cumpre-se todos os anos no Festival-Romaria Milagre D’Urgueira, que se realiza no terceiro domingo de Agosto.

De moliceiro ou Buga?

O famoso moliceiro de Aveiro

Chegou o comboio e um bafo de agitação varre a calmaria da cidade. Aveiro. Na cabeça a pergunta de tal nome, que alguns atribuem às muitas aves que por ali se avistam. Parece demasiado simples, mas as toponímias não obedecem a regras. A “Veneza de Portugal” é sempre bonita, ainda que a Ria poluída não ajude à fama. Os belos moliceiros pintados de todas as cores carregam turistas para norte e sul, rasgando as águas que cortam a cidade a meio. É um passatempo batido e por isso alguns optam pela Buga – bicicleta de utilização gratuita de Aveiro –, até mesmo gente que vai para o trabalho. É também a forma mais fácil de chegar ao Canal de São Roque e, atravessando a ponte ogival, visitar ao bairro onde funcionavam os antigos armazéns de sal.

As Salinas de Aveiro são um emaranhado de valas, tanques e lagoas de decantação separadas por diques, taludes e marachas colonizadas pela vegetação típica dos sapais. O esplendor da natureza de mão dada com a cidade moderna. Mesmo ao lado está o Canal do Cojo, repleto de azenhas, de onde no verão se avistam pequenas mas impressionantes pirâmides brancas: é o Ecomuseu Marinha da Troncalhada, que dá a conhecer os métodos de produção de sal, ainda hoje feita de acordo com a tradição. Ainda não existia Ria quando os aveirenses começaram a explorar este recurso. Na verdade, o primeiro documento escrito é anterior à fundação da própria nacionalidade.

Voltamos a atravessar a ponte e seguimos para a Antiga Estação da CP, ponto incontornável desta cidade-museu da Arte Nova. É um belo edifício, revestido por um grande número de painéis da Fábrica Fonte Nova reproduzindo motivos regionais. Aqui está o mais importante conjunto de azulejaria exterior de Aveiro. É também um exemplo, a nível regional, do estilo de Casa Portuguesa. Bem mais atual é a Biblioteca da Universidade de Aveiro, desenhada por Siza Vieira, cujo tijolo vermelho, próprio do Campus, a certa altura parece desafiar a ordem do mestre, vibrando numa espécie de ondulação controlada.

Os belos moinhos de vento

A junta de bois puxa a rede para a costa num esforço traído pela areia que não deixa firmar as patas. De seguida, o arrais – assim se chama o mestre – comanda os homens e mulheres na árdua tarefa de a estender pelo areal e dela arrancar todo o peixe que teima em voltar ao mar. Estamos na praia da Vagueira, em Vagos, assistindo a uma tradição que poderá ter os dias contados. A arte xávega está para acabar, assim dizem os entendidos. Já não toca o búzio pela manhã, acordando os homens para mais uma jorna de pesca, e os tractores vão ocupando o lugar dos animais. É uma actividade cada vez menos rentável.

Chegámos aqui de carro, “traindo” o propósito inicial de fazer a Rota da Bairrada por caminho-de-ferro. Não poderia ser de outra forma – esta pequena vila com cerca de 3.800 habitantes nunca viu passar o comboio. Valeu a pena o desvio. Seguimos para Santo André de Vagos – queremos ver os Moinhos de Vento de São Romão. São belas construções em pedra onde outrora se moíam os cereais, aproveitando a força eólica trazida pelo vento marítimo.

Não conhecemos bem o concelho e por isso andamos às voltas. Atravessamos de novo a Ria de Aveiro, que corta o município em duas metades: uma parte continental e uma porção de cordão dunar da Costa Nova. Agora vamos para norte, até à Lagoa de Calvão, que descobrimos calcorreando o passadiço que a acompanha, miradouro privilegiado para os bonitos patos bravos que se passeiam descontraídos. É nesta freguesia com o mesmo nome que se realiza o Vagos Open Air, único festival de verão de música heavy-metal em Portugal. No caminho para sul, descobrimos o Santuário de Nossa Senhora de Vagos, fundado em 1204 pelo rei D. Sancho I, que recebe todos os anos milhares de fiéis.

Do leitão aos Amores da Curia

A Bairrada é conhecida pelo leitão, uma das Sete Maravilhas da Gastronomia Portuguesa, que faz as delícias de quantos visitam esta zona do país e acompanha em perfeita harmonia os bons vinhos que ela oferece. A iguaria está ainda presente em diversos pratos de carne ou peixe, como a cabidela ou a feijoada de leitão. Mas a Bairrada é também conhecida pelos doces conventuais – a barriga de freire de Anadia, os pastéis de Santa Clara – e os “profanos” ovos-moles ou os Amores da Curia, folhados em forma de coração, marco de uma época de romantismos vividos nos jardins da Curia.

O Amazonas em ponto pequeno

Apanhamos de novo o comboio, que há de levar-nos a Oliveira do Bairro, terra de bom vinho, arrozais e cegonhas. A agricultura de subsistência e a viticultura preservam o traço rural de um concelho onde nos últimos anos ganhou importância a cultura do kiwi. Os campos de arroz acompanham o esbelto rio Cértima, que corre em sentido contrário, de sul para norte, em perfeita comunhão com a natureza. Parece um Amazonas em ponto pequeno.

É nesta terra de água que se encontra o Monumento à Epopeia Marítima das Descobertas e ao Universalismo Português, obra do mestre escultor Lagoa Henriques. Inaugurado em 2005, é uma homenagem ao passado glorioso e serve de ponte para o futuro, projectando esperança nos tempos vindouros. No mesmo ano foi construído o Museu de Etnomúsica da Bairrada, no qual os mais novos ficam estarrecidos ao olhar para um gira-discos, um gravador de bobina, uma grafonola ou um velhinho receptor de rádio.

O concelho é pequeno – tem apenas seis freguesias –, mas oferece múltiplos e variados espaços verdes, circundados pelo rio e por singelos vales e ribeiros, refúgios seguros para a cegonha, que aqui faz o seu ninho. Em breve vai ser possível seguir-lhe o rasto, quando estiver concluído o percurso pela Rota das Cegonhas. Chegamos ao Parque da “Fonte Bebe e Vai-te” e não perdemos tempo…

Um museu subterrâneo

As mãos calejadas têm uma rotina muito própria. Tiram cachos tão depressa que um cesto de 50 e mais quilos se enche num instante. Os outros demoram mais, aqueles que ensaiam a arte das vindimas pela primeira vez. É uma das experiências que a Aliança Vinhos de Portugal, em Anadia, propõe aos visitantes – uma pequena formação e mãos à obra! Há os que optam pela Caça à Casta, um jogo lúdico em plena comunhão com a natureza, numa das principais quintas da região, a Quinta da Rigodeira, e aqueles que não se importam de ter o Nariz Distraído e aceitam descobrir aromas de diferentes perfis – floral, frutado, balsâmico – e identifica-los, num verdadeiro teste à memória olfactiva.

O vinho é a palavra que mais se ouve neste concelho e dá mesmo nome a um lugar muito especial, o Espaço Bairrada – Wine Tourism and Passion Store, antigo edifício da estação de caminhos-de-ferro da Cúria que agora serve de promotor turístico da Bairrada. Da antiga estação mantêm-se os típicos compartimentos, os bancos em madeira e os azulejos com mística ruralista. Também há o Museu do Vinho Bairrada, este em Avelãs de Caminho, onde, por apenas um euro, é possível conhecer os “Percursos do Vinho” e admirar exposições de arte contemporânea.

Há quem venha a Anadia em busca de um tesouro, guardado a sete chaves por Luis Pato, descendente de uma família que produz vinho pelo menos desde o século XVIII. O actual proprietário tomou conta da Quinta do Ribeirinho depois da vindima de 1980 e o néctar dessa colheita é hoje procurado como uma autêntica relíquia, uma bebida dos deuses para especialistas nacionais e estrangeiros. Outros vêm apenas para competir no Centro de Alto Rendimento – Velódromo Nacional, imponente edifício circular com uma pista coberta de 250 metros.

Museu do Vinho Bairrada

Este arrebatador itinerário de culturas, património e experiências é propício aos enamorados, que, depois de descobrirem os segredos vinícolas de uma das regiões mais pitorescas da Bairrada, podem dar um passeio pelo belo Parque da Curia, pedalando uma gaivota num ambiente romântico repleto de jardins, com lago central e, junto à buvette, sob uma escadaria, uma pequena gruta escondida.

Vinho e arte

E se pudesse visitar caves subterrâneas, provar um bom vinho, jantar num ambiente único enquanto admira obras de arte com milhões de anos? É isso que propõe o Aliança Underground Museum, em Anadia, onde, além do famoso néctar bairradino, vários espumantes e aguardentes estagiam em perfeita comunhão com oito coleções que vão da arqueologia à etnografia, passando por azulejos e cerâmica.

A derrota do” enfant terrible”

A oeste, o Atlântico. A sudeste, a Serra da Estrela. E a nordeste, o Caramulo. Estamos no ponto mais alto da Serra do Bussaco, na Mealhada, palco de uma das mais célebres batalhas das Invasões Francesas. No topo da montanha com 547 metros, uma grande cruz em pedra polida, do século XVII, ocupa o lugar de uma antiga cruz de madeira, fulminada por um raio. É o ponto final da Via Sacra e um miradouro de suster a respiração – parece que estamos no centro do mundo.

O silêncio rege os caminhos pejados de história, iluminados a espaços pela luz que atravessa o arvoredo frondoso entre o qual se escondem muitas capelas e alguns tugúrios, que serviram de refúgio aos frades em meditação. A Fonte Fria é especialmente bonita no outono, quando as folhas caídas das árvores se espalham pela escadaria que sobe até ao monte, de onde sai a água agitada, saltitando de pedra em pedra até se reencontrar, cá em baixo, num pequeno lago.

Mata do Bussaco

Um pouco mais acima fica o Moinho de Sula, onde, em 1810, o general inglês Crawford estabeleceu o seu posto de comando. Em homenagem aos vencedores foi erguido o Museu Militar do Bussaco, que guarda valiosas colecções de armas, uniformes e equipamentos usados na batalha, com destaque para uma peça de artilharia com a respectiva guarnição e uma maqueta que mostra as posições das forças em combate.

Um amplo pátio rodeado de pequenas casas antigas recebe quem chega ao Museu Etnográfico de Pampilhosa, que recolhe e expõe material relacionado com a criação de porcos, actividade com raízes seculares na região e cujo expoente é o famoso Leitão da Bairrada. Chega a noite e o Casino do Luso convida a uma visita. É um exemplar da Arte Nova, datado de 1886, que retrata a Belle Époque, com uma bela pintura de Gabriel Constante no tecto do Salão de Espectáculos e uma rica biblioteca.

     Batalha do Bussaco

A 21 de setembro de 1810, o visconde Wellington escolhia a Serra do Bussaco para enfrentar as tropas napoleónicas lideradas pelo marechal André Massena, “L’enfant cherry de la victoire”, determinado a expulsar os ingleses da Península Ibérica. Seis dias depois, os franceses, em maior número, defrontaram o exército anglo-luso na extensa e íngreme serra, sofrendo uma pesada derrota, com mais do dobro das baixas. 

Os moços que sequestravam raparigas

É fácil perder-se na Adega Cooperativa de Cantanhede, por entre o labirinto das bonitas caves subterrâneas, onde cada canto, iluminado de azul ou verde, é uma surpresa constante e um refúgio seguro para o famoso néctar. Quem quiser pode provar vinhos e espumantes Marquês de Marialva e ficar a conhecer melhor os aspectos sensoriais e os métodos de produção, enquanto saboreia um bom queijo, tostas e frutos secos. Os romanos terão sido os primeiros a fazer vinho nesta terra de solos argilosos, que hoje tem a maior mancha vitícola da Região Demarcada da Bairrada. Sim, foi preciso fazer mais um desvio, desta feita por Cantanhede, que já teve linha férrea, a da Beira Alta, entretanto desactivada.

A terra dá de beber e o mar de comer. Na Tocha ainda se pesca a tradição da arte xávega, outrora sustento para dezenas de famílias e agora à beira de se perder. Quem continua é por carolice – alguns dizem tolice –, acreditando que o dia de amanhã vai ser melhor. Cantanhede é lenda, memória e saber. A Fonte dos Castros, de 1674, é um pequeno paraíso: a água segue por valeiras de pedra sempre cheias, até cair no precipício, junto às bancadas revestidas a pedra que serviam para pousar os cântaros de 20 litros e os canecos de madeira com que as moças levavam água para as suas casas. Os bancos eram para os moços, que “sequestravam” as raparigas ao entardecer, ajudando-as depois a pôr as vasilhas à cabeça, num gesto de galanteria cavalheiresca.

Arte Xávega na Praia da Tocha

Há por aqui um singular Monumento ao Ourives Ambulante, escultura em bronze que reproduz fielmente uma das figuras mais carismáticas. O Museu da Pedra é uma das grandes atracções da cidade – além dos artefactos arqueológicos pré-históricos e romanos, dá a conhecer ornamentos feitos com a Pedra de Ançã, fina e compacta, o que torna mais fácil o corte da rocha e os trabalhos a pico e cinzel, razão pela qual os romanos a usaram em construções e na escultura. No século XV a pedra chegou a Espanha e depois a toda a Europa. Desde então que as jazidas de calcário são um importante factor de desenvolvimento económico do concelho, permitindo o incremento da actividade escultórica e fazendo de Cantanhede um dos principais centros do país nesta área.

A casa do saber é um moderno edifício que dá pelo nome de Biocant Park, o primeiro e único parque científico e tecnológico especializado em biotecnologia em Portugal, berço de muitas empresas e pólo de atracção de investigadores dos quatro cantos do mundo. Uma cidade aberta ao conhecimento e à diferença, como prova o Centro Equestre de S. Caetano, onde funciona o projecto PoneyClub, que cultiva o gosto pelo cavalo, usando-o como terapia e auxiliando os professores a conseguir melhores resultados escolares com crianças e jovens com necessidades educativas especiais e/ou problemas comportamentais.

Arte xávega

Outrora sustento de muitas famílias, a arte xávega é hoje uma espécie de carolice de alguns pescadores que, em Cantanhede e não só, ainda lançam as redes ao mar. Na Praia da Tocha, onde os velhos palheiros foram transformados em casas de férias, os banhistas dão uma ajuda quando os barcos chegam ao areal. Agora é mais fácil: os tractores sempre puxam mais do que as juntas de bois, ajudando a manter a tradição.

Aqui descansam os dois primeiros reis de Portugal

Entramos em Coimbra determinados em fugir aos roteiros turísticos que todo o ano guiam milhares de visitantes à descoberta da cidade dos estudantes. O Pátio dos Esteios, cantado por poetas, é um lugar mítico da lenda coimbrã, palco de inúmeras tertúlias intelectuais durante quase um século e miradouro privilegiado sobre a cidade e o rio Mondego. À entrada, somos recebidos por um sumptuoso portão que se abre para o jardim e a alameda de plátanos, onde sobressai a Fonte da Primavera, do século XVII. As estátuas voltadas de costas para a cidade evocam a Fortaleza, Diógenes e a Ásia. Outras, escondidas no arvoredo e mais antigas, simbolizam a Fé, a Esperança, a Caridade e a Morte.

Seguimos para o Penedo da Saudade, assim chamado por ser ali, segundo a lenda, que D. Pedro ia chorar a perda da sua amada, D. Inês de Castro, que foi rainha depois de morrer. No século XIX, por ocasião das reuniões de curso e outros eventos académicos, era comum os estudantes colocarem lápides com versos nos recantos dos jardins. Nas alamedas, os bustos de António Nobre ou Eça de Queiroz, antigos alunos, perpetuam a sua ligação à cidade. Não poderíamos deixar de fazer uma visita ao jardim Botânico, o mais belo pulmão da cidade, cuja vegetação reflecte os estudos e intercâmbios botânicos com todos os quadrantes do globo. Foi criado durante a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, em 1773.

Os dois primeiros reis de Portugal descansam na velhinha Igreja de Santa Cruz – Panteão Nacional, iniciada em 1131 sob o patrocínio de D. Afonso Henriques, que, como o filho, D. Sancho I, repousa numa elegante arca tumular.  Sente-se o peso da História, acumulado nas sombras de um edifício majestoso, com nervuradas abóbadas manuelinas, um órgão barroco e um cadeiral coroado por temática alusiva aos Descobrimentos.

Atrás da igreja está o Claustro da Manga, sublime construção renascentista, com fonte e um jardim que, diz a lenda, terá sido desenhado por D. João III na manga do seu gibão, daí o nome. Ali perto está o Pátio da Inquisição, onde funcionou o Tribunal do Santo Ofício – hoje acolhe o Centro de Artes Visuais. Nos passos da Irmã Lúcia, chegamos ao memorial que lhe presta homenagem, crónica de uma vida de 98 anos, desde o tempo das Aparições de Fátima até ao falecimento, em 2005, na sua cela de carmelita, cuja réplica fiel encerra o percurso da visita.

Há qualquer coisa de mágico nas ruas apertadas desta cidade, calcorreadas todos os anos por milhares de “morcegos” na subida para o conhecimento e na descida para a diversão. Coimbra é o cenário perfeito para um “perpétuo renascimento do espírito”, escreveu Miguel Torga. O Mondego corre calmo, como sempre, por baixo da colorida Ponte Pedro e Inês, um ícone da arquitectura, um “arrojo da engenharia”, miradouro distinto para a Alta, Património da Humanidade, ponto final na Rota da Bairrada.

Universidade de Coimbra: 725 anos a ensinar

A 1 de março de 1290, D. Dinis assinava o Scientiae thesaurus mirabilis, documento que criava a Universidade de Coimbra, a primeira do país e uma das mais antigas do mundo. A instituição começou por funcionar em Lisboa e, depois de sucessivas mudanças entre a capital e Coimbra, acabou por se fixar nesta cidade em 1357. O programa comemorativo dos 725 anos inclui concertos, feiras, seminários ou exposições e termina a 3 de dezembro com um Congresso Internacional sobre a língua portuguesa.

 

Texto: Lino Ramos

Artigo republicado da edição 26 da revista Descla, de Novembro de 2015