Aquilino Ribeiro quando estudava no Colégio da Lapa
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“Em poucas dezenas de quilómetros reproduz-se a terra toda: amenidade e braveza, a colina e o vale, a civilização e a selvajaria. À volta da aldeia onde ergui a minha barraca, no inverno uivam os lobos ao desafio com o vento. Bela fanfarra! Na primavera alteiam-se do solo, pelos caminhos trilhados, flores que a botânica dos sábios não teve ocasião de descobrir”. Ninguém mais poderia escrever as palavras de Aquilino Ribeiro, n’ O Homem da Nave. Há que nascer na terra e amá-la. A Beira Alta é isto mesmo: tem tudo e tão pouco.

Depende da perspectiva. A de Aquilino foi sempre a mesma. A Beira era o último refúgio: aqui voltava para se esconder, recuperar forças, concentrar-se, ter paz, estar com os amigos, ir à caça. A pé, conheceu cada canto das “Terras de Demo”, como lhes chamava. Aqui aprendeu a ser gente, amar a liberdade, ser livre. Ganhou valores, limou o carácter, cultivou o desassossego, num espírito beirão de honra, do antes quebrar que torcer.

As duas horas já lá vão há dez minutos. O carro avança pelas estradas quase desertas, ladeadas por montes, árvores, animais, caminhos antigos, casas bonitas, pessoas educadas. A selvajaria e a civilização. Chegamos ao Carregal, em Sernancelhe, à casa onde nasceu o escritor. O pátio tem o seu nome plasmado à entrada, numa pedra em forma de livro.

A casa onde nasceu Aquilino Ribeiro, em Carregal, Sernancelhe I Fotografia: Tiago Canoso

A humildade do lugar e da habitação em granito, restaurada, parecem coisa de cinema, mas são apenas de uma pequena aldeia, que, como tantas outras da Beira, mantém identidades difíceis de entender para quem é de fora. Aquilino viveu aqui dez anos, até ir estudar para o Colégio da Lapa.

O primeiro olhar é enganador. Parece uma pequena cidade, com santuário e colégio, numa bonita praça de esplanadas. Na verdade, é mais uma aldeia, esta com centro histórico. Aquilino chegou à Lapa em 1895, acompanhado por um padre, que o deixou no santuário até ir falar com o reitor do colégio, e lhe disse “porta-te bem”.

O rapaz obedeceu, de boca aberta com o crocodilo pendurado no teto da igreja. Subiu ao altar, descobriu a virgem, o presépio, o S. António, e simpatizou com o menino Jesus da Lapa, que, de bola na mão, fez Aquilino pensar que os dois viriam a ser amigos. Estava em casa, mas ainda não sabia: já adulto, esconder-se-ia aqui muitas vezes para fugir à polícia.

O menino traquina

O local é ainda hoje paragem obrigatória de muitos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Há 500 anos, juntavam-se aqui 5 mil pessoas, contam os documentos da época. Os jesuítas começaram a construir o santuário no século XVI, no lugar da capela que existia, mantendo o penedio no seu interior, onde há uma gruta por onde só passa quem não tiver pecados, diz o povo.

Ao lado, está o colégio, também em granito, também imponente, onde Aquilino mostrou quem era e quem viria a ser. “Tinha tendência para meter-se em zaragatas”, conta Ana Nunes, da gestão turística do Santuário da Lapa. O pai era muitas vezes chamado à sala de entrada, onde os professores lhe contavam asneiras do pequeno.

As escadas, ao lado, dão para o corredor do segundo andar, onde, de uma grande janela, Aquilino dizia ver a Serra da Estrela em dias de sol. Os 970 metros de altitude dão para isso. Nas paredes do quarto 33, as fotografias mostram antigos alunos. Muitos tornaram-se figuras ilustres, “o que hoje tornaria o Colégio da Lapa num dos mais conceituados no ranking nacional”, sublinha Ana Nunes. As três camas estão feitas, o bacio arrumado, mas não há sinais da secretária de Aquilino. “Alugar uma secretária ficava mais caro do que toda a alimentação durante o ano lectivo. Ele era um menino rico, podia tê-la, era um menino mimado”, revela.

Colégio e Santuário da Lapa

Talvez por isso, aventurava-se mais. Um dia foi com um colega até à cave. Levavam uma vela, que se apagou assim que desceram pelo alçapão. Caminharam no escuro, até verem um raio de luz que passava por uma fresta. Para lá da porta, entraram numa sala húmida, fria, cheia de livros, escondidos na altura da perseguição aos jesuítas. Daqui poderá ter saído o título “Uma Luz ao Longe”, publicado em 1949, que conta a história desde que entrou no colégio.

O amigo não mais voltou à sala, Aquilino sim. “Lá, conseguiu as bases que o fizeram dar o salto para outros lados, para longe, para a luz. Ou seja, fizeram-no ver”, explica Ana Nunes. “Era um curioso pelo saber, vasculhava todas as bibliotecas dos conventos”, conta Fernando Baptista, filólogo, conhecedor profundo da obra aquiliniana.

De “Quando os Lobos Uivam” ao Nobel

A aventura na Lapa acabou pouco depois, quando o pequeno, em mais uma briga, esfaqueou um colega. “Foi convidado a ir embora”. O eufemismo de Ana Nunes é tudo o que Aquilino não foi. Filho de padre e de uma criada deste, aprendeu a viver com o preconceito. Fez-se duro e nunca virou as costas à luta, na vida e na escrita. Jamais esqueceu a Senhora da Lapa, de que fala em quase todos os livros.

Lamego foi o destino: aprendeu a ser gente, a ser livre, a amar a liberdade. Esse espírito, aliado a um carácter determinado, levá-lo-iam, dois anos depois, a negar de vez a vontade da mãe para que fosse padre. Partiu para Lisboa, onde haveria de se envolver na luta republicana, foi preso, mas fugiu para França depois de forçar as grades da cela.

De Paris veio em 1910 para logo partir. Bebeu a cultura gaulesa num trago, sabia quem eram os grandes da escrita muito antes de serem conhecidos por cá. Estudou na Sorbonne, foi correspondente, e em Paris conheceu a primeira mulher, a alemã Grete Teuidemann, de que teve o primeiro filho, Aníbal, em 1914.

A 1ª Grande Guerra fê-lo regressar a Lisboa. Mais tarde, envolveu-se numa tentativa de golpe de Estado contra a ditadura militar, acabou ferido e refugiou-se nas “Terras do Demo”, antes de voltar a França. O regresso não tardou, para se envolver no frustrado movimento do Regimento de Pinhel. Preso no Fontelo, escapuliu-se mais uma vez.

A ditadura punha em causa tudo aquilo em que acreditava e pelo qual tinha lutado, mas Aquilino teve que aprender a viver com ela. “Quando os Lobos Uivam”, de 1958, valeu-lhe um processo movido pelo Estado Novo: o livro ofendia a magistratura, a PIDE e o presidente do Concelho, diziam. A pena de prisão poderia ir até oito anos. O caso chegou a França, onde Mauriac escreveu um protesto a defender Aquilino. Em Portugal, Francisco Vieira de Almeida propôs a candidatura ao Nobel. O governo percebeu que era melhor ficar por ali.

“Alcança quem não cansa”

A estrada para Soutosa corre rápida, sem agitação. Passa um carro, de quando em vez. Uma calma imponente. Monte, casario, monte, aquele monte que Aquilino calcorreava pelo vício da caça. “Batia tudo isto a pé, à procura do coelho e da perdiz”, revela Fernando Baptista.

Nos caminhos, nas conversas, no olhar atento, encontrava as personagens dos seus livros: o “barbeiro de Tabosa”, o “Malhadinhas”, o “Fome Negra”, “porque eram tempos de fome, de miséria”, explica o investigador. Através das suas histórias, contava a vida na aldeia, o mundo rural já tão esquecido, distante da metrópole refinada de Eça de Queiroz. Conhecia a cidade, mas preferia o campo. “A vida apaixonou-me sob todas as formas, sobretudo essas formas insignificantes que não chamavam a atenção dos outros”, dizia o escritor numa entrevista à RDP.

Dos outros, muitos não lhe compreendiam a escrita, imbuída desses vocábulos regionais que ouviu e aprendeu cedo. Diziam-na ultrapassada. “A verdadeira língua viva foi o povo que a fez”, respondia. Juntava-lhe a erudição e um antagonismo que para ele era natural: racionalidade e emotividade.

O portão aberto convida a entrar na antiga casa de Aquilino em Soutosa, Moimenta da Beira, junto à estrada. Debaixo das árvores – figueiras e tílias –, reina o silêncio no pátio, onde está o busto. “De pena na mão, procuro ser independente, original, inteiriço como um bárbaro”. As palavras são como pedras que ninguém mexe.

Escritório na casa de Aquilino Ribeiro

Fernando Baptista conheceu Aquilino. Esteve ali há muitos anos, “tinha uns 18”, a lanchar com um tio e outros amigos do escritor, “um bom garfo”: gostava de trutas e castanhas, fruto típico da região, a acompanhar boa conversa. A casa mantém-se organizada. O chão, em madeira, denuncia cada passo que damos pela cozinha, logo à entrada, e pelas escadas até ao segundo andar, numa habitação humilde, a pedir o restauro, que hoje é sede da Fundação Aquilino Ribeiro.

Há muitas fotografias da primeira mulher, Grete, mas não da segunda, Jerónima Machado. Ali estão os seus óculos, os seus livros, o retrato que Abel Manta lhe pintou, agora no quarto reconstituído – modesto, uma cama em ferro branco e uma cómoda com fotografias. Há correspondência de Óscar Lopes, Teixeira de Pascoaes e um postal de Beatriz Costa com o seguinte destinatário: Aquilino Ribeiro. Morada: Brasileira do Chiado.

O espaço serviu-lhe de refúgio, um local, como tantos outros na Beira, onde recuperava forças a cada verão. As Terras do Demo. “Chamei-lhe assim porque a vida ali é dura, pobrinha, castigada pelo meio natural (…), em poucas terras como esta é sensível o fadário da existência”, explicou na obra de 1919.

Biblioteca na casa de Aquilino Ribeiro, em Soutosa, Moimenta da Beira, hoje sede da Fundação Aquilino Ribeiro

A biblioteca fica a uns 100 metros, isolada, e guarda cerca de 8 mil volumes. A escrita não parava: publicou, em média, um livro por ano. Os 69 títulos são um legado invejável, à medida de um homem que se levantava “infalivelmente” com a alba. Vivia para trabalhar. O resto era conversa. “Alcança quem não cansa”, dizia.

Texto: Lino Ramos

Artigo republicado da edição nº 22 da revista Descla, de Setembro de 2014