Ribeiro Frio. Fotografia: VisitMadeira
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Quando os navegadores portugueses chegaram à Madeira, em 1420, toda a ilha era coberta por um extenso e denso arvoredo, razão pela qual lhe atribuíram esse nome. Quase seis séculos depois, o cenário é diferente – a floresta Laurissilva ocupa apenas 15 mil hectares, 20% da superfície. Ainda assim, continua a ser a mais extensa e bem conservada Laurissilva das ilhas atlânticas.

Esta floresta subtropical húmida tem origem nos períodos Miocénico e Pliocénico da Época Terciária, há 20 milhões de anos. Nesse tempo, a Laurissilva ocupava vastas extensões do Sul da Europa e da bacia do Mediterrânio, mas as mudanças climáticas provocadas pela formação do mar, bem como as últimas glaciações, eliminaram parte da floresta, que sobreviveu e até conseguiu prosperar nas regiões insulares, com menos variações climáticas devido ao efeito amenizador do Oceano Atlântico.

Til, no Fanal. Fotografia: VisitMadeira

Os arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias são os únicos sítios onde se encontra actualmente, mas só no primeiro caso a floresta está classificada pela Unesco como Património da Humanidade, desde 1999. Qualquer época é boa para visitar a Laurissilva, pois está sempre verde: quase nenhuma das árvores ou arbustos perde a folha. Entre as espécies mais emblemáticas contam-se o Til, o Loureiro, o Vinhático e o Barbusano – todas da família das Lauráceas –, mas também as epífitas, plantas que crescem sobre outras plantas.

O pombo-trocaz é um dos habitantes mais famosos, pelos melhores e piores motivos. Trata-se de uma espécie endémica deste ecossistema e uma das mais antigas da Macaronésia, região formada por aqueles três arquipélagos juntamente com Cabo Verde. No entanto, causa prejuízos nas culturas e por isso foi criado um programa de apoio aos agricultores que envolve, por exemplo, a entrega de redes de exclusão e espanta-pássaros a gás.

A floresta é ainda conhecida pelas mais de 500 espécies endémicas de invertebrados, entre moluscos, aracnídeos e insectos. Nestes últimos, o isolamento geográfico e as grandes diferenças de altitude fizeram com que aqui se desenvolvessem tipos com formas muito particulares, como a redução ou atrofiamento das asas e a alteração do tamanho corporal, bem visível nalguns coleópteros. A Laurissilva integra o Parque Natural da Madeira, conferindo-lhe a este um forte estatuto de protecção. Desde 1992 faz ainda parte da rede de Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa e constitui Zona de Protecção Especial-ZPE, no âmbito da Directiva Aves.

Uma das melhores formas de descobrir este recanto mágico é percorrer as levadas, famosos canais que atravessam a floresra transportando a água desde as vertentes mais a norte até ao sul da ilha. Estes aquedutos começaram a ser construídos no século XVI para regar as plantações, nomeadamente a cana-de-açúcar, e abastecer os centros urbanos.

Uma das famosas levadas da ilha da Madeira. Fotografia: VisitMadeira

A rede foi crescendo ao longo dos anos e actualmente ocupa uma extensão superior a 2 mil quilómetros. Nas visitas guiadas, abertas a pessoas de todas as idades, técnicos ou vigiantes da natureza dão a conhecer a composição biológica da floresta, as espécies indígenas e endémicas, a sua conservação, uso e ameaças.

            Texto: Lino Ramos

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