Fotografia: Mariana Rodrigues
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Imagine um grande encontro de culturas no qual milhares de europeus, vestidos a rigor, dançam, cantam e tocam, partilham histórias, mostram com orgulho a identidade da sua terra natal… É assim a Europeade, o maior festival de folclore do velho continente, que este ano vai realizar-se em Viseu, de 25 a 29 de Julho. Durante uma semana, mais de 5 mil pessoas vão actuar na cidade de Viriato, num evento sem paralelo que está a gerar grandes expectativas.

Mais de 200 grupos, oriundos das principais regiões europeias com tradições de dança e música popular, vão exibir os seus dotes em concertos e bailes em espaços emblemáticos como o adro da Sé, a Praça da República ou o Parque Aquilino Ribeiro. É uma espécie de Eurovisão, mas muito mais abrangente, pois aqui desvenda-se toda a riqueza e diversidade culturais que caracterizam a Europa.

O parque verde, um dos locais mais bonitos de Viseu, é o coração do evento: é aí que vão ser apresentadas as várias cidades participantes e onde vai decorrer o ‘mercado’ do folk, com artesanato, gastronomia internacional e um workshop de dança. No dia 29, o espaço vai acolher um momento histórico, com espectáculos que aliam o folk ao contemporâneo.

Viseu é, este ano, Cidade Europeia do Folclore, sucedendo a Turku, na Finlândia. Trata-se de uma grande montra para um município que nos últimos anos apostou muito na sua valorização como destino turístico, tendo mesmo declarado 2017 como “Ano oficial para visitar Viseu”. Foi com esse slogan que se apresentou na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) desse ano, no qual foi “Cidade Nacional Convidada”, na primeira vez que o evento promoveu tal iniciativa.

Fotografia: Mariana Rodrigues
“Fomentar uma Europa unida”
A Europeade tem como objectivo promover e salvaguardar o Património Cultural Imaterial do “velho continente”. O festival foi fundado em 1964 pelo belga Mon de Clopper e pelo alemão Robert Muller-Kox, com o intuito de fomentar uma Europa unida, onde todos possam desenvolver a sua própria cultura, respeitando os demais. Tal filosofia é praticada durante os cinco dias do evento, quando milhares de pessoas se encontram para dançar e festejar, vestindo os seus trajes típicos. Cada edição da Europeade tem à volta de 5 mil pessoas participantes. Todos pagam a respectiva viagem. Quando chegam à cidade organizadora, são alojados em grandes instalações, normalmente escolas. Além dos concertos oficiais, muitos grupos cantam, dançam e tocam onde quer que estejam, em espectáculos improvisados que fazem jus à origem do folclore. A primeira edição do festival decorreu na cidade de Antuérpia, na Bélgica, a última em Turku, na Finlândia. Esta é a primeira vez que o evento se realiza em Portugal.

Desmistificar o folclore

A escolha não foi ao acaso: Viseu tem um património histórico de grande valor, é reconhecida pelos belos jardins e paisagens vinhateiras e oferece uma agenda cultural e de lazer que chega a fazer inveja às duas maiores cidades portuguesas, Lisboa e Porto. O festival literário Tinto no Branco, que junta grandes personalidades, e o de street art, um dos maiores do país, são dois eventos marcantes, sem contar com a mais antiga feira franca da Península Ibérica ainda no activo, a de São Mateus, com 626 anos. Além disso, Viseu já foi eleita, por diversas vezes, “melhor cidade para viver” pela Associação de Defesa do Consumidor (DECO).

O município espera milhares de visitantes durante a Europeade. “É uma oportunidade de ouro para a promoção de Viseu junto de mercados turísticos culturais. Tudo faremos para tirar partido dessa oportunidade”, garantiu o vereador da Câmara de Viseu, Jorge Sobrado, na apresentação do festival, em Junho. Esse é um dos grandes objectivos do evento. O outro é também um desafio: desmistificar o conceito de folclore e valorizá-lo.

Fotografia: Mariana Rodrigues

Em Portugal, o folclore é ainda alvo de algum preconceito e muitos associam-no apenas ao rancho e à música popular. Na verdade, é muito mais do que isso: é toda a cultura popular, são as tradições e os costumes transmitidos de geração em geração, como canções, danças, artesanato, jogos, lendas, contos ou provérbios. Ou seja, é todo o conhecimento produzido por uma comunidade ao longo da sua história – com efeito, a palavra advém dos termos ingleses folk (povo ou gente) e lore (saber/conhecimento). Há também quem defina folclore como o saber tradicional ou a história não escrita de um povo.

Fotografia: Mariana Rodrigues

“Pôr o folclore na moda”

“A partir de Viseu, concelho e região, podemos e queremos criar um movimento de reconciliação do público com o património imaterial português”, apontou Almeida Henriques no lançamento, em Maio, do plano #Viseufolk, que visa “pôr o folclore na moda” e assim iniciar esse processo localmente. Para tal, foram convidados diversos artistas – o músico viseense Moullinex está a trabalhar no projecto “Electrofolk”, que alia a música tradicional portuguesa à linguagem electrónica. A estilista Katty Xiomara, por sua vez, vai criar uma linha de moda inspirada no folclore e na iconografia de Viseu. Partindo da mesma temática, vai ser produzido um espectáculo de dança contemporânea, a cargo da Companhia Paulo Ribeiro e da escola Lugar Presente.

“Estamos a trazer o folclore para o século XXI, a dar-lhe novas expressões, usos e linguagens. Preservar tradições implica também fazer pontes entre o antigo e o contemporâneo”, sublinhou Almeida Henriques durante a apresentação da Europeade. O plano, composto por 26 medidas, é para continuar depois do festival, com uma agenda estratégica que visa promover o património cultural imaterial da região de Viseu, valorizá-lo mais junto da comunidade e torná-lo um atractivo turístico.

Fotografia: Mariana Rodrigues

Tal aposta abrange não apenas as tradições do folclore mas também o artesanato de qualidade, os produtos agro-alimentares de excelência, as aldeias e os valores rurais e naturais, bem como a criatividade e a inovação artística em torno desses valores. O objectivo, em suma, é consolidar a marca Viseu nacional e internacionalmente, fazendo jus ao título de cidade europeia histórica. Isso é fundamental para uma possível candidatura – a autarquia já manifestou essa vontade – a Capital Europeia da Cultura, que em 2027 vai ser portuguesa.

 

Texto: Lino Ramos

 

Leia a nossa edição dedicada à Europeade