Ilhéu da Baleia. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Turismo Açores
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Vulcões, caldeiras, lagoas, águas termais, fumarolas, cascatas e grutas. Isto e muito mais é o Geoparque Açores, composto por mais de 100 geossítios ao longo das nove ilhas do arquipélago. Cada qual é único, raro, fascinante, mas o encanto deste paraíso natural não se esgota na riqueza geológica: os espectaculares miradouros, as plantações de chá, a paisagem vinhateira património da humanidade, a gastronomia regional, as baleias e os cachalotes, entre muitos outros atractivos, fazem com que o tempo pareça sempre pouco para quem visita.

“Nove ilhas, um geoparque”. Assim resume o slogan. Na primeira, Santa Maria, encontramos o “Deserto Vermelho dos Açores” ou Barreiro da Faneca, criado pela lava de basalto que fluiu e foi sobreposta por uma camada de cinzas. A cor vem do clima quente e húmido do período Pliocénico, há mais de dois milhões de anos, que originou argilas avermelhadas. É um dos geossítios mais visitados e uma das paisagens mais características da ilha, a primeira que os portugueses descobriram, em 1427.

Bem diferente é a Ribeira do Maloás e a sua famosa cascata com cerca de 20 metros, onde a água cai por entre rochas em forma de polígonos hexagonais, formados quando a lava de basalto tocou no mar – fazem lembrar a mundialmente conhecida “Calçada dos Gigantes”, na Irlanda.

Barreiro da Faneca. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Turismo Açores

O próximo destino dispensa apresentações – é, porventura, a imagem de marca dos Açores: a Caldeira das Sete Cidades e as célebres lagoas Verde e Azul, assim chamadas devido à cor das águas. Formada há cerca de 36 mil anos, a cratera tem um diâmetro médio de 5,3 km e profundidade máxima de 630 metros. São Miguel é a ilha com mais geossítios, 27.

Paramos depois no Vulcão das Furnas, local de grande geodiversidade, destacando-se a Lagoa das Furnas, diversos pequenos vulcões, campos fumarólicos e muitas nascentes de água termais e minerais. Trata-se do gesossítio açoriano terrestre de maior relevo internacional. É neste solo quente que se faz o célebre “Cozido das Furnas”, mas o lugar também é famoso pelos banhos termais em poças ou piscinas e pelo uso de lamas vulcânicas e de águas, como as conhecidas “águas azedas”, para tratamentos.

Não podemos sair de São Miguel sem visitar a melhor praia selvagem de Portugal, junto à caldeira do Vulcão do Fogo, nem a Caldeira Velha, cuja nascente termal alimenta duas quedas de água, a segunda das quais tem uma represa na base, envolta por exuberante vegetação. Mais a jusante, numa segunda piscina termal, é possível desfrutar das águas a 38ºC…

A caldeira das Sete Cidades. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Roland Koch www.reisevortraege.de

A melhor praia selvagem de Portugal

Ilha Terceira. Pensamos logo na bela cidade de Angra do Heroísmo, cujo centro histórico foi o primeiro em Portugal a ser reconhecido como património da humanidade. Estamos na Ilha Lilás, assim chamada pela cor do seu pôr-do-sol, especialmente belo se estivermos na baía de Angra.

Ao lado desta encontramos o famoso Monte Brasil, um antigo vulcão de origem marítima que ainda conserva fósseis de moldes da flora que existia aquando da erupção, há alguns milénios. A montanha é protegida por uma das maiores muralhas do mundo, a Fortaleza de São João Baptista, com 4 km, construída para defender a cidade dos ataques de piratas e corsários – na época dos Descobrimentos, Angra do heroísmo era um porto de escala obrigatória para as frotas da Índia, do Brasil e de África.

Mais para dentro da ilha, abaixo da superfície está o Algar do Carvão, conhecido pelas belas e raras estalactites e estalagmites, que chegam a ter um metro de comprimento e 50 cm de diâmetro.

Algar do Carvão. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Turismo dos Açores

Parece uma baleia, de facto, daí o nome do ilhéu que encontramos na Graciosa. É a chaminé de um antigo vulcão marinho, posta a descoberto pela erosão, que assim traz à superfície estruturas geológicas que de outra forma nunca seriam vistas. Mais acima está o Farol da Ponte da Barca, que possui a torre mais alta de todos os faróis açorianos.

Os mistérios do vulcanismo prosseguem na Caldeira da Graciosa e na sua Furna de Enxofre, à qual acedemos por uma escada de 183 degraus em forma de caracol. Encontramos então uma lagoa de água fria e uma fumarola de lama, de onde vem o cheiro a enxofre.

Ilhéu da Baleia. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Turismo Açores

Mais de 1.700 vulcões, nove activos

Os Açores são uma terra de constantes descobertas. A beleza vem, sobretudo, da intensa actividade vulcânica ao longo de milhões de anos – 1.766 vulcões, nove ainda parcialmente activos, fizeram do arquipélago um verdadeiro santuário do geoturismo. Diversos centros de ciência espalhados pelas ilhas ajudam a entender este património natural.

A ilha de São Jorge é conhecida pelas inúmeras fajãs, terrenos criados pela lava que avançou mar adentro ou por terras e rochas que caíram da encosta devido a sismos, chuvas intensas e outros fenómenos naturais. Uma das mais famosas é a Fajã do Ouvidor, formada pela lava que escorreu do Pico Areeiro há mais de 2.500 anos. A abundância de água e os microclimas em muitas fajãs permitem a existência de culturas raras e de excelente qualidade, como o café e os inhames, outrora um importante meio de subsistência das gentes mais pobres.

Paisagem de São Jorge, com a montanha do Pico ao fundo.  Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Maurício de Abreu/DRT

Montanha do Pico. Eis que avistamos o ponto mais alto de Portugal, com 2330 metros. Não é preciso subir ao topo para nos deslumbrarmos: a 1.250 metros já vemos as ilhas do Faial e São Jorge, e em dias de céu limpo o olhar alcança a Graciosa e a Terceira. O vulcão do Pico é o terceiro maior do Atlântico Norte. Os extensos campos de lava marcam a paisagem da ilha. A alguns, as pessoas deram o nome de “mistérios”, por temerem e não compreenderem as erupções.

Por estranho que pareça, nestas terras faz-se vinho de excelente qualidade, o verdelho, que chegou a andar na mesa dos czares russos e cuja cultura é património da humanidade – é cultivado em “currais”, pequenas áreas de lava preta quase sem terra vegetal.

Montanha do Pico com neve. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – caisdopico.blogspot.pt

O vulcão dos Capelinhos lembra a paisagem lunar. O acontecimento de 1957-58 mudou a história do Faial, a sétima ilha desta viagem pelo Geoparque Açores. Parece milagre ninguém ter morrido naquele ano fatídico. Muitos partiram para os Estados Unidos, ao abrigo do célebre Azorean Refugee Act, que atribuiu vistos a 2 mil faialenses. O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos recorda esse episódio.

A maior parte da “Ilha Azul” – assim chamada devido às inúmeras hortênsias – é ocupada, no entanto, por outro vulcão, o da Caldeira, com cerca de 2 km de diâmetro. No seu interior encontramos uma zona húmida que outrora foi uma lagoa, drenada aquando do fenómeno dos Capelinhos. Se houver tempo, vale a pena visitar o Museu de Scrimshaw, que tem uma colecção de dentes de baleia e cachalote gravados pelas mãos de hábeis pescadores.

Vulcão dos Capelinhos. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Publiçor

O ponto mais ocidental da Europa

Uma, duas, três…há muitas quedas de água na costa das Flores. Lá em baixo, dão origem a vários poços, como o do Bacalhau e o da Alagoinha, também conhecido por Lagoa das Patas. As mais impressionantes cascatas são as da Ribeira Grande, na zona da Fajã Grande e Fajazinha, que chegam a ter cerca de 300 metros de altura.

A ilha é famosa pelas diversas caldeiras, geradas por explosões, quando o magma, ao subir, contactou com a água. A mais funda é a Caldeira Negra, que atinge 108 metros. É nas Flores que alcançamos o ponto mais ocidental da Europa, o ilhéu de Monchique. O nome, esse, vem da abundância de flores amarelas, as “cubres”, cujas sementes terão sido trazidas por aves desde a península da Flórida.

Ilha das Flores. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Floreesha

Ilha do Corvo. A única vila, com o mesmo nome, é a mais pequena dos Açores, com pouco mais de 400 habitantes, que vivem em casas baixas dispostas ao longo das ruas estreitas que sobem as encostas. Poucos mas bons, diz-se desta gente, que tem fama de corajosa, o que levou os baleeiros norte-americanos a recrutarem aqui tripulação, no século XVIII. No topo do vulcão central fica uma grande caldeira, mais conhecida por “Caldeirão”, com uma lagoa e alguns cones vulcânicos, que segundo a cultura açoriana representam as nove ilhas do arquipélago.

Caldeirão. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Publiçor

Termina a viagem por terra. É preciso mergulhar para ver a Dorsal Atlântica, o mais extenso vale de rifte do mundo, com cerca de 16 mil km de extensão que atravessam a quase totalidade do oceano. Trata-se de uma zona sísmica e vulcanicamente muito activa, que está associada à formação do Atlântico e à sua expansão, à média de 2 cm por ano, bem como das ilhas açorianas – é precisamente no arquipélago que fica um dos seus pontos mais interessantes do ponto de vista científico, pois aqui confluem três placas tectónicas. A cadeia montanhosa localiza-se entre os grupos ocidental e central, entre os 840 e os 3 mil metros de profundidade.

A origem da vida

Não menos impressionante é o Banco D. João de Castro, um monte submarino que surgiu por volta de 1720 após uma erupção vulcânica que originou uma ilha circular. Esta foi desaparecendo devido à erosão marinha, até ser dada como extinta dois anos depois. Em meados do século XX, descobriu-se que a ilha, na realidade, tinha-se transformado num recife e encontrava-se apenas uns metros abaixo da linha de água, podendo ter sido, por isso, a causa de alguns naufrágios.

O mergulho é a melhor forma de contemplar este fenómeno da natureza, situado numa zona conhecida como Rifte da Terceira, entre esta ilha e a de São Miguel, e conhecer de perto a sua enorme biodiversidade – cerca de 300 espécies já foram detectadas, com destaque para a jamanta, a serra e a cavala-da-Índia. Mas muito mais há a descobrir: o arquipélago dos Açores é uma importante rota de migração, daí que no Banco D. João de Castro possam existir espécies raras que não tenham sido registadas nas expedições anteriores, como o tubarão-frade, o tubarão-baleia, as orcas ou as baleias-azuis.

Jamanta ou raia-diabo. Fotografia: Azoresphotos.visitazores – Nuno Sá

Este poderá ser ainda um óptimo local para entender a origem da vida, nomeadamente através do estudo dos extremófilos, organismos que vivem em condições extremas, como falta de luz, baixa temperatura, pressão elevada e abundância de elementos tóxicos, algo que caracteriza esta formação geológica. Além disso, é um excelente local para o estudo da tectónica das placas e consequente actividade sísmica e magmática. Tudo isso levou a que o Banco D. João de Castro seja Sítio de Interesse Comunitário e integre a Rede Natura 2000 da União Europeia.

E assim acabamos a longa viagem pelo Geoparque Açores. Passámos por alguns dos geossítios mais importantes, com a certeza de que neste arquipélago há muito mais para ver e fazer. A Floresta Laurissilva, a biodiversidade infinita, os jardins, as plantações de chá, o património arqueológico subaquático ou as festas do Divino Espírito Santo valeriam, por si só, uma nova jornada…

Texto: Lino Ramos

 

Leia mais na edição de Setembro da Descla, dedicada aos geoparques portugueses 

Geoparques …by Descla