A vila de Mértola. Fotografia: C.M. Mértola
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Quem diria que a vila de Mértola, do alto de um monte cortado pelo rio Guadiana, já foi capital de um emirado islâmico? Não é fruto do acaso, mas sim da vantagem geográfica que esta zona sempre teve e que tantos povos a si chamou, fazendo das terras em redor de Mértola pontos incontornáveis de várias rotas comerciais. Por aqui já houve riqueza e abundância vinda de vários cantos do mundo: Iberos, Romanos Fenícios, Gregos e Cartagineses passaram por Mértola.

Mas a história de prosperidade da actual vila alentejana começou com os muçulmanos. Com a invasão dos povos do Norte de África, liderados por Tarik em 711, Mértola reafirmou a sua função comercial. Graças à sua posição geográfica excepcional no último troço navegável do Guadiana, reforçou a sua condição de porto mais Ocidental do Mediterrâneo. É nas décadas 30 a 40 do século XI que Mértola (ou Martulah, como era então designada) elevou-se até se tornar capital de um pequeno emirado islâmico independente – a taifa de Mértola.

A vila cresceu de tal modo durante o seu período islâmico que, sob o antigo Forúm romano, foi edificado um bairro onde escavações modernas descobriram habitações, pátios e ruas de arquitectura dessa era. É por isso que Mértola possui no seu museu um núcleo de Arte Islâmica. Fora das portas do museu, um dos legados maiores da

Núcleo de arte islâmica no Museu de Mértola. Fotografia: C.M. Mértola

presença islâmica aqui é a Mesquita de Mértola, cuja brancura leitosa reflecte os raios de sol abrasador do Alentejo. Erguida no século XII, a sua construção preservou pormenores da era romana, e, depois da reconquista, também os elementos muçulmanos foram conservados.

Mas a era dourada de Mértola findou para dar lugar à conquista cristã. Foi Paio Peres Correia, comendador da Ordem dos Cavaleiros de Santiago, quem ficou encarregue de tomar a região, que mais tarde foi doada à Ordem. Uma oferta recebida de bom grado, dada a importância militar do local pela sua ligação ao Algarve, e que por isso mesmo fez com que os Espatários escolhessem a cidade como sede da Ordem em Portugal (estatuto que manteve até 1316).

O comércio de Mértola começou aqui a perder alguma da sua velha vitalidade; foi preciso chegar ao século XVI para D. Manuel conceder o Foral à vila, que, lentamente, começou a ganhar fulgor graças à exportação de cereais para as ocupações portuguesas no Norte de África.

 

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