Fotografia da reportagem vencedora, "Carapito, terra de regalões", de Carlos Paixão
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Não admira que nunca tenha ouvido este nome, não admira que nunca tenha visto uma placa de sinalização com a indicação deste lugar… Afinal é, como muitas outras, uma humilde aldeia portuguesa, perdida, algures, no interior do país. Mas se o que buscamos é um lugar assim, genuinamente português e com uma ou muitas histórias singulares para contar, então, vamos andando…

Dando o primeiro passo, ficamos a saber que, administrativamente, pertence ao distrito da Guarda, ao concelho de Aguiar da Beira e aquele lugar é freguesia, a freguesia de Carapito. E, metendo pés a caminho, dando outros passos, com ou sem Gps, encontramos o destino.

Aí chegados, a capa do livro, que se abre, é orlada de verde pinho e o plano central é, ainda, estampado do rústico granito cinza-amarelado que construiu as casas medievais, a igreja setecentista, as fontes e ergueu o garboso pelourinho manuelino. Mas é apenas uma capa…

Para conhecermos, não nos podemos deter por aqui. Entramos pelas páginas adentro, desfolhamos a história e vivemos com quem ali vive. Em Carapito, somos carapitenses e regalões.

O epíteto vem-lhes de longe e assenta-lhes, ainda hoje, como luva feita à medida, graças à qualidade de vida de que usufruem os seus habitantes e às sublimes histórias que nos contam.

Tendo tempo para os ouvirmos, sentamo-nos nos degraus do balcão da casa quinhentista da tia Aurora e ela depressa nos desfia a misteriosa história da Casa da Moura.

Ela não sabe, pois nunca entrou portas adentro da escola, que se trata de um monumento megalítico, com cerca de 6 000 anos, e que é a segunda maior das antas da Península Ibérica, com os seus esteios de aproximadamente 4 metros de altura. Também não dá grande importância ao facto de, ali, próximo das Entre-as-Águas, descobrirmos outras duas de menores dimensões.

O que lhe interessa é contar-nos que a moira, que ali viveu durante muitos anos, era uma moira muito bela e com poderes encantatórios, pois foi ela que trouxe de longe, não havendo pedreiras próximas, não se sabe de onde, aquelas pedras todas à cabeça, enquanto fiava! Ela não sabe que aqueles monumentos são bem anteriores aos mouros, como o comprova todo o espólio que hoje faz parte do Museu Nacional de Arqueologia mas, para ela, aquela é a história mais bonita que tem para nos contar, sem se esquecer que, hoje, ainda se explora muito granito nas pedreiras do Rei Mouro, “onde devem estar escondidos uma grade e um cambão de ouro”. Todavia, nos tempos que correm, não é a mesma coisa, pois as potentes máquinas, que esventram a encosta, deixam muito a desejar quando comparadas com a graciosidade da jovem mourisca.

E, quando a tia Aurora disser que não tem mais para contar, encarreiramos para o centro da antiga vila e é lá, nos vetustos e gastos degraus do pelourinho, que encontramos em descanso o senhor Albino, a quem podemos chamar o homem do pelourinho, pois dali, com seu olhar e seu falar, dá conta de toda a vida da aldeia.

Senhor de uma memória prodigiosa e sabendo ao que vamos, logo nos atira que a povoação nem sempre ali teve assento. Há muitos séculos atrás, situava-se do outro lado da ribeira, na meia encosta da serra do Pisco, num lugar ainda hoje chamado de Castelos.

Depois, somos nós que averiguamos que ali se ergueu, em tempos antigos, uma torre e uma muralha. Nos terrenos circundantes ainda são visíveis as ruínas circulares do que foi um castro e uma planta retangular de um pequeno templo pré-romano. Mas, também para o homem do pelourinho, o importante é a história que nos quer contar e o leva a continuar, “Sabe por que é que a povoação mudou para este local? Foi por causa de uma invasão de formigas. E eram tantas as formigas e tão bravas que os habitantes tiveram que fugir para o lado de cá da ribeira, pois só assim se viram livres dos malfadados bichos que não conseguiam atravessar pela água.”

Como estranhamos o que escutámos, vamos em busca de uma explicação e encontramo-la quando descobrimos que aquela serra também é conhecida por serra do Almançor, pois por aí passou e assentou arraiais o célebre caudilho muçulmano e, assim, deciframos que afinal as famosas formigas não seriam nem mais nem menos que os milhares de guerreiros que compunham os exércitos mouros. Aí chegados, devastaram o que encontraram, obrigando a que os residentes fugissem para a outra encosta e aí reconstruíssem a sua vida e dessem novo alento à sua história.

E “esta gente era gente de boa têmpera”, como diz o senhor Albino, agora já coadjuvado pelo “ti Adelinote” que, apesar de gago, fala pelos cotovelos. “Se não fosse gente de mangas arregaçadas, como é que se fazia uma terra destas, com tudo o que por cá tem? Querem os senhores ver? Venham daí connosco.”

Nós aceitamos o convite e vamos nesta visita guiada. A primeira paragem é, logo ali, no adro da igreja para, ufanos também do presente, nos mostrarem a escultura em granito da padroeira, Nossa Senhora da Purificação. E, arredando o chapéu da cabeça, encaminham-nos para o interior do templo, para admirarmos a decoração barroca e uma bonita tela de grandes dimensões que, pintada por um artista local, nos explica a apresentação do Menino Jesus no templo.

Mas sabendo que há mais para ver e ouvir, não nos demoram, e andados uma vintena de passos, bem ou mal contados, ficamos a conhecer o solar dos Pegos ou dos Morgados das Varandas, na Carreira de Baixo, com capela dedicada a Santo António, mas que já não tem santo, pois quando a família caiu em desgraça, foi o santo vendido para enfeitar a capela de uma terreola vizinha, a troco de um porco e um alqueire de feijão. A história é longa e demorada, para aqui e agora ser bem contada. O nicho, esse, ainda lá está a deslado, direitinho, no muro do caminho.

Caminho que seguimos até à rua dos Loureiros e dali, por quelha estreita, temos acesso ao Terreiro da Santa Cruz. Já não estranhamos dar de caras com mais um grupo de pessoas idosas, sentadas à sombra, em banco de pedra corrido. Calam-se eles, falam elas, pois dizendo ao que vimos, logo nos presenteiam com a beleza do seu canto:

Terreiro da Santa Cruz

Hei de te mandar varrer

Com uma vassoura de prata

Que de ouro não pode ser!

Hoje, mais do que da Santa Cruz, falam-nos do antigo solar dos Beltrões, a que em tempos foi subtraído o bonito brasão, mas logo a dona Maria das Dores mostra firme intenção de nos contar a singular história da Menina do Rosário que, há muitos anos atrás, em tempos de pneumónica, aí fundou um hospital e se dispôs a cuidar de todos os necessitados, gastando os seus bens em proveito dos pobres e moribundos. Morreu ela muito jovem, granjeou fama de santa, tem campa no cemitério da localidade, com orientação distinta de todas as demais e a ela se atribuem diversos milagres e, por isso, ainda se continuam a rezar novenas e a invocar outras graças. Mas não segue por aí a conversa, pois logo atalhou a tia Prazeres dizendo que, agora, ali, está instalada uma unidade de Turismo Rural, com um ótimo local de alojamento e restaurante de saborosa cozinha regional.

Não tendo tempo de a provar, subimos aos tanques públicos, onde nos dessedentamos na bica, onde ainda jorra água fresca e límpida. Ali, é a dona Maria da Luz que, no seu dizer, “está a lavar uns trapitos”, quem nos conta como a água que sobejava dos lavadouros era usada para a rega dos campos e repartida por diferentes famílias e arrematada por outros, à saída da missa de domingo, e a queriam para regar as suas leiras. Quem não a precisava eram os moradores da casa solarenga que, ali defronte, nos fecha os horizontes. O Solar dos Freire de Andrade, ou Morgados da Santa Cruz, tinha mina e fonte de água fresca que alimentava as culturas do quintal e as árvores do pomar. Hoje, ainda é uma mais-valia desta nobre residência.

Saindo os robustos portões da entrada, acompanhamos o rego que desce a calçada, deparamo-nos com portais quinhentistas e o forno do povo, admiramos belos exemplares da casa beirã, com as originais escadas e varandins de granito, apreciamos a frescura e a arquitetura tradicional da Fonte da Vila, uma fonte de chafurdo, ou de afaga caneco, que, com a água que escorria do Linhar e da Cerca, abastecia as casas em redor. Já não cozendo o Forno da Calçada, nem o da Praça, interrogamo-nos de onde vem o cheiro a pão fresco, acabado de cozer, e logo a senhora Augustinha, sentada numa das namoradeiras, que tem junto da janela, na sua casa da rua das Adegas e bem próximo das alminhas de Santa Luzia, nos informa, lá de cima, que há duas padarias bem perto, que para além do pão, cozem bolos de azeite e queijadas únicas por altura do São Pedro de Verona. “E olhem que também fazem outros bolos muito bons, pois agora até uma pastelaria cá temos na nossa terra. E se gostarem destas comidas da moda, há, para os lados da Confraria, uma pizaria já com fama.” Esqueceu-se ela, mas ficámos nós a saber, mais tarde, que nesta questão dos sabores, não ficamos a perder se formos ao Restaurante Tenreiro provar as boas francesinhas ou, pelo menos, sentir-lhes o cheiro. Abrem-se diferentes apetites, mas escolhemos as vistas e, para isso, logo nos dizem que é melhor subirmos ao Monte Calvário. E nós subimos e regalamo-nos com o panorama que se nos oferece. Os horizontes alargam-se para sul, até à Estrela. O vale, verdejante e viçoso, símbolo de gente laboriosa, vê passar as águas do rio que correm de mansinho, entre margens bordadas de freixos e amieiros. Aqui e ali, descobrimos o ponteado dos rebanhos que salpicam os prados verdes. Ao leite irá juntar o cardo a tia Alice, ele há-de coalhar e as mãos habilidosas, com a ajuda do acincho, darão forma ao queijo que será apreciado, algumas semanas mais tarde, quando a sua manteiga deslizar para cima de uma igualmente saborosa fatia de pão centeio, ou acompanhar uma boa fatia de marmelada. São sabores e cheiros que ficam para sempre gravados na memória de quem tem o privilégio de os sentir, na convivência com estas boas gentes que continuam a cantar ladainhas, junto deste cruzeiro do Calvário, na bênção dos campos, augurando as melhores colheitas.

As gentes de Carapito gostam de festejar e, ao longo de todo o ano, não deixam passar em claro as datas de 20 de janeiro, com missa e procissão na capela do mártir São Sebastião e vésperas comemoradas com gulosas chouriças assadas na brasa, no terreiro da capela. Não passam muitos dias e logo se celebra a padroeira, Nossa Senhora da Purificação, a 2 de fevereiro. A festa maior, essa, fica para 29 de abril, dedicada a São Pedro de Verona, com feira e festa rija, que traz à aldeia os carapitenses espalhados pelo mundo e muitos forasteiros que entendem ser a melhor oportunidade para encontros e reencontros. Dos santos populares, é o São João que vê acender as fogueiras com cheiro a rosmaninho. É já verão quando se realiza a Festa do Clube Cultural e Recreativo de Carapito, com relevo maior para as provas desportivas e o desfile do Grupo de Bombos. No primeiro domingo de agosto, é tempo de celebrar a Senhora da Boa Viagem, com missa campal na Beberica e lanche partilhado, aberto a todos os residentes e visitantes, em plena rua. Entende-se, agora, bastante melhor o epíteto de regalões!

Completa-se a romaria das festas, na véspera de Natal. A noite de Consoada é marcada pela monumentalidade do cepo que arde na Praça e congrega à sua volta as gentes de boa vontade que continuam a preservar muitas e belas tradições, como o cantar ao Menino, a Missa do Galo, as Janeiras, o toque do Grupo de Bombos e o repique dos sinos em tempo de festa.

E de tudo isto se dá conta nas reportagens que se escrevem para o jornal local. Pasmem, agora, senhores! Aqui é terra de escritores! O Caruspinus é um jornal a caminho dos 40 anos que, da aldeia, leva notícias aos quatro cantos do mundo, onde houver carapitenses ou seus descendentes, pois o seu lema é: “Exaltando Nossas Gentes”.

Mas, deste miradouro natural do Calvário, abrigados pelos ramos da carvalha anciã, não podemos deixar de reparar nas oito torres das eólicas que se erguem acima dos quase mil metros da Serra do Pisco. São elas que compõem o primeiro parque eólico da multinacional Ikea, no nosso país, e que transmitem a estas gentes do nosso interior, que habitam lugares únicos, a esperança num futuro tão jubiloso como o foi o seu passado.

Fica-nos a certeza: “os ventos do futuro não varrerão nunca as memórias do passado, se cada um de nós se fizer presente!”

 

Texto e fotografias: Carlos Paixão

Reportagem vencedora do concurso de reportagem Descla/Fanc Viseu