A obra “Nº 38120” do duo Estúdio Pedrita para o desafio “Do Presente para o Futuro”
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Azul e branco: pode-se dizer que este duo mítico representa mais as cores da nacionalidade do que o conjunto verde, vermelho e amarelo da bandeira. São esses os tons tradicionais do azulejo, esses pequenos pedaços de cerâmica pintada que contêm em pouco centímetros toda uma pátria. São uma herança desenhada por vários povos, e mesmo assim em Portugal assumem características únicas. Prova disso é Lisboa.

Na capital, o azulejo é tanto parte da paisagem como a calçada branca e o cinzento escuro do asfalto; aqui, ganha novos tons e formas, alguns já pela mão de artistas urbanos cuja marca levam até o mais distraído dos transeuntes a parar para ver mais de perto.

Azulejo do Palácio Nacional de Sintra do início do século XV (com origem nas oficinas de Sevilha) exposto no Museu Nacional do Azulejo

Um convento quinhentista tornado museu

Ouve-se o passar dos comboios a alta velocidade, que vai diminuindo aos poucos. Paralela ao caminho-de-ferro que leva os passageiros à Estação de Santa Apolónia, está a Rua Madre de Deus, na qual se situa o Museu Nacional do Azulejo. Fundado no século XVI enquanto Convento da Madre de Deus pela Rainha Dona Leonor, o museu possui uma colecção impressionante que vai desde os mouriscos da ocupação árabe até às obras de artistas contemporâneos.

As suas galerias, tal como uma máquina do tempo, oferecem uma perspectiva sobre a tradição do azulejo desde a vinda dos mouros. Os ladrilhos mais antigos de Portugal estão aqui: vieram de um pavimento do castelo de Leiria, e pensa-se que a sua criação remonta ao século XIV. Com o seu padrão em xadrez de cruzes e estrelas, formam aquilo a que se chama enxaquetado. Outras obras que impressionam quem percorre os corredores do museu: o retábulo de Nossa Senhora da Vida, que enche uma parede com os seus quadrados, e que constituiu a primeira produção de Lisboa da metade do século XVI.

E, no último andar, os turistas reúnem-se numa sala vermelha onde está exposto o Grande Panorama de Lisboa. É um painel de 23 metros que mostra a paisagem de Lisboa desde a localização do então Convento até à Torre de Belém, concebido cinco décadas antes do Terramoto de Lisboa – e é por isso o retrato mais completo da cidade antes do desastre.

À saída, o final da visita não podia fazer mais sentido: junto ao claustro do primeiro piso, as paredes exibem três obras de artistas actuais aos quais foi dada a liberdade de recriar o azulejo com peças arrojadas. Maria Ana Vasco Costa, Estúdio Pedrita e Text-tile assinaram as peças foram feitas para este desafio – que, nem por menos, chama-se “Do Presente para o Futuro”.

Num só canto, tanta Portugalidade

Quase tão histórica como os azulejos é a Feira da Ladra que assenta arraial no Campo de Santa Clara, junto do Panteão Nacional, já desde o século dezanove. Ali, o céu é rasgado pela cúpula do Panteão, no qual descansam para a eternidade personalidades ilustres, como Amália, Eusébio ou Aquilino Ribeiro. Todas as terças e sábados, chegam

A obra “Nº 38120” do duo Estúdio Pedrita para o desafio “Do Presente para o Futuro”

os mercadores e preenchem a calçada com o colorido das suas roupas, porcelanas, livros, mala e… azulejos. Sejam vendidos em miniaturas para o frigorífico ou em bases de cortiça, fazem sucesso entre os turistas que por lá passam.

E o sítio não podia ser mais acertado: a Feira instala-se com pompa entre a Igreja de São Vicente de Fora e o Jardim Botto Machado, dois locais onde o azulejo pode ser visto, quer no expoente da tradição antiga, quer numa reinterpretação urbana garrida.

A igreja e mosteiro de São Vicente de Fora impõe respeito pela sua colecção de azulejos  –  ironicamente, a construção desse mesmo mosteiro foi um agradecimento de Afonso Henriques ao mártir pela conquista de Lisboa aos mouros. Uma vez expulsos, os mouros poderão eventualmente ter-se regozijado de o mosteiro ter algo que é um pouco deles – nada mais nada menos do que o maior conjunto de azulejos barrocos de todo o mundo. São 100.000 os azulejos, entre os quais há uma protagonista especial: a série de 38 painéis que ilustram as Fábulas de La Fontaine. Num só espaço, o azulejo é pois filho de várias culturas…

Já do outro lado, o verde do Jardim Botto Machado é apertado pelo mural do luso francês André Saraiva, mural esse que ganhou nova vida pela mão do artista em 2016. Ao descer a rua, imediatamente salta logo à vista o seu fundo branco com desenhos em tons garridos. André Saraiva fez seus os mais de 180 metros do mural, preenchendo-o com um impressionante número de 52 738 mil azulejos em estilo graffiti alusivos aos monumentos lisboetas e outras referências pop. À sua tela juntam-se as cores e azáfama das bancas dos feirantes, duas vezes por semana.

Um sábado de Feira da Ladra junto ao mural do Jardim Botto Machado

Debaixo da terra, as galerias de arte inesperadas

Não é só a cobrir os prédios lisboetas de baixo a cima, fazendo-os reluzir sob a luz do sol, que o azulejo serve de decoração. Todos os dias, cada estação do Metro de Lisboa recebe milhares de pessoas que por lá passam aceleradas, na correria de apanhar o metro a tempo. Talvez o que nem todas saibam é que estou a passar ao lado de obras de arte: a rede do metropolitano tem todas as suas estações enfeitadas com painéis criados por uma panóplia de artistas nacionais e internacionais.

Um exemplo disso é a estação do Parque, onde o azul-cobalto domina as entradas e saídas para quem se dirige ao Parque Eduardo VII. Originalmente ocupada por uma composição de Maria Keil, a estação foi reinventada em 1994 quando Françoise Schein e Federica Matta, que, tomando como ponto de partida a Declaração Universal dos Direitos do Homem, revestiram a nave com os trinta artigos da Declaração.

As autoras quiseram igualmente explorar a Expansão portuguesa, e por isso as palavras dos Direitos do Homem juntaram-se às imagens da cronologia da epopeia, aludindo a todo o universo da temática, desde a construção naval até à escravatura, com miniaturas de Vasco da Gama a aparecer ali e acolá. Assim se uniu o azulejo àquele que foi um dos períodos áureos do país.

Parar no meio da correria e pensar – eis o efeito das citações escolhidas pelas artistas
Parar no meio da correria e pensar – eis o efeito das citações escolhidas pelas artistas

 

 

 

 

 

 

 

A escadaria da viva cidade

Esta incursão pelo azulejo começou com uma menção ao azul e branco, as cores que os mercadores portugueses trouxeram emprestadas das exuberantes porcelanas chinesas. Este tipo de azulejo teve o seu expoente máximo no Barroco, e não é ao acaso que se mantém uma das modalidades de azulejo mais facilmente reconhecíveis.

E foi aproveitando esta mítica paleta que Add Fuel (nome artístico de Diogo Machado) revestiu a escadaria da Avenida Infante Santo – a paragem final da Rota do Azulejo, um itinerário que passa por painéis de nomes consagrados do século XX, tais como Maria Keil, Júlio Pomar e Eduardo Nery.

O artista trouxe garra juvenil à sua vizinhança clássica com “Louvor à Vivacidade”, usando o azul e branco barroco em traços igualmente redondos e excêntricos – mas, claro, com inspiração do presente, ou não fosse ele conhecido pelas suas caveiras e cabos USB escondidos nas pinturas. Quem vê de longe nem se apercebe de que esta escadaria tem algo de irreverente; só ao aproximarmos-mos é que apercebemo-nos que Add Fuel juntou figuras de pescadores sorridentes ao padrão tradicional, numa homenagem à profissão outrora mais popular da zona da Estrela.

Pormenor do “Louvor da Vivacidade” na Avenida Infante Santo

Se pensarmos que a Rota começou em 1959, então faz todo o sentido fechá-la com uma figura da nova geração que mais internacionalizou o azulejo. Não foi um acaso, mas sim uma capacidade de reinterpretação nascida nas ruas que levou Add Fuel de Portugal ao mundo – levando consigo na mala o azulejo a cantos onde nunca tinha estado.

Pintado e esculpido mil vezes, o azulejo não é mais um simples quadrado de cerâmica: é uma nova linguagem em suportes que seriam imagináveis para os nossos antepassados, e que desafia jovens artistas a questionar o que é ser português. É que o azulejo não perdeu a graça própria da arte que sabe casar a história com o futuro…

 

Texto e fotografia: Mariana Rodrigues

Esta reportagem conquistou o segundo lugar do concurso de reportagem Descla/Fanc Viseu