Fundação Eça de Queiroz
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A rota do românico pelos vales do Sousa, Douro e Tâmega mostra-nos características singulares desta zona, particularizando aquilo que de românico se pode ver a norte do país. O românico que se pode ver por estes lados demonstra-nos o importante papel que esta zona teve, em tempos passados, no que concerne à história da nobreza e de ordens religiosas da nossa nação. Esta arquitectura pode ser visualizada e apreciada em diferentes tipos de monumentos, como são pontes, igrejas, mosteiros, entre outros.

Há muito que um grupo de amigos se reúne para conhecer os cantinhos remotos, mas belos e culturais, deste nosso belo “país à beira mar plantado”, sendo que desta vez o rumo foi ao norte, à beira Douro.

Após uma viagem pela serra de Montemuro, com uma breve passagem pelo centro da vila de Cinfães, a visita começou pela bela Igreja de Santa Maria Maior de Tarouquela, esse monumento que outrora fazia parte de um mosteiro feminino da Ordem de São Bento. Neste monumento podem visualizar-se muitos pormenores arquitectónicos e ornamentais que traduzem o que de artístico se pode ver nesta região, denotando-se as mensagens simbólicas que se pretendem passar através dos portais, da cachorrada, das frestas e dos capitéis. Do exterior ao seu interior, a beleza é ímpar, sendo que é de salientar o portal principal, de evidente escultura românica, com os “cães de Tarouquela” de cada lado do portal, a escultura beneditina, o altar de sagração românico e o seu tabernáculo, entre outras preciosidades.

Serra de Montemuro

Seguindo a viagem, encontramos, numa encosta da serra de Montemuro, o Mosteiro de Santa Maia de Cárquere, local esse que é identificado como o sítio onde, durante a sua infância, o infante Afonso Henriques se curou, a pedido de Egas Moniz, seu aio, por intercessão da Virgem Maria. Neste mosteiro, composto por dois pisos, não é fácil identificar a sua data de construção, e tendo em conta diversas “cicatrizes” denota-se que sofreu várias alterações ao longo do tempo.

O mosteiro tem em si uma torre robusta, de características românicas, assim como parte da sua cachorrada, e, em maior evidência o estilo românico pode ser observado na capela tumulária, nas arcas tumulares em granito. No entanto, observando a igreja, a sua abóbada, entre outros pormenores, denotam-se visualizações de estilo gótico. No interior deste mosteiro, por detrás de dois altares amovíveis, podem ainda ser visualizados frescos, que são de uma beleza rara.

Ficando por Resende, em ambiente de turismo rural, há que aproveitar o que de mais belo o Douro tem para nos oferecer, uma bela paisagem e uma calma que nos faz encantar, cantar, relaxar e… Viver!

Reiniciando a rota, dirigimo-nos até ao Mosteiro de Santo André de Ancede, no concelho de Baião, numa encosta virada para o Douro, local onde se encontra um enormíssimo património religioso, económico e espiritual. Da igreja de Santo André, às ruínas das alas do mosteiro, à capela do Senhor do Bom Despacho, Ancede tem muito para mostrar. Pode observar-se o estilo românico na rosácea que se encontra na parede do fundo da capela-mor da igreja, no entanto uma das maiores belezas que podemos observar é o altar da capela do Senhor do Bom Despacho, de estilo barroco, e onde estão representadas cenas da Paixão de Cristo, da vida de Maria e da infância de Cristo,… uma beleza sem igual. Não podemos ficar sem visitar as ruínas do mosteiro e o centro interpretativo da vinha e do vinho, que nos contam histórias de como se vivia no século XII, assim como se criou um entreposto comercial à base da produção e exportação de vinho.

Deixando o românico para trás, e ainda por terras do concelho de Baião, dirigimo-nos à Fundação Eça de Queiroz, fundação esta que foi pensada desde que o último filho de Eça faleceu (1970). A fundação foi criada com vista a manter a divulgação do estudo e da obra deste talentoso escritor, assim como desenvolver diversas actividades culturais. A Casa Mãe da fundação é constituída por um museu, uma biblioteca, um auditório, um arquivo e três casas de turismo rural (as antigas casas dos caseiros).

No interior da casa encontra-se o espólio do escritor. Na antiga casa existia um lagar de azeite uma eira e um beiral, que após algumas intervenções, em 2014, se tornou no Restaurante de Tormes, onde se podem degustar as ementas queirosianas. Iniciando a refeição por um belo Caldo de Galinha com Fígado e Moela “Desconfiado (Jacinto), provou o caldo que era de galinha e rescendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de miséria, uns olhos que brilhavam, surpreendidos […]. E sorriu, com espanto: – Está bom!” Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo” (A Cidade e as Serras), passando para um prato de frango alourado com Arroz de Favas “E pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas! … Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: – óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia! (A Cidade e as Serras) e terminando com um saboroso Arroz Doce “A mesa, redonda e pequena, parecia uma cesta de flores. O “champagne” gelava dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa de arroz-doce tinha as iniciais de Maria (…). Batista entrava com uma terrina de louça do Japão. E Carlos, alegremente, anunciou um jantar à portuguesa.” (Os Maias), sempre acompanhado por um vinho verde “vinho amável destas serras”, assim se finaliza um percurso cultural, cheio de memórias do que de bom existe em Portugal, neste caso concreto, por terras do Douro!

Texto e fotografia: Ângela Quinteiro

Esta reportagem conquistou o terceiro lugar do concurso de reportagem Descla/Fanc Viseu