Salvador quer mais gente na livraria Ulmeiro

Livros baratos durante uma semana. É assim que o Espaço Ulmeiro, em Lisboa, tenta evitar o encerramento, ao fim de quase meio século de atividade

Fotografia: Ana Luísa Alvim. CM Lisboa
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A livraria Espaço Ulmeiro, em Lisboa, em risco de encerrar ao fim de quase 50 anos de atividade, tenta os últimos esforços para reverter a situação, realizando esta semana uma feira do livro. José Antunes Ribeiro, o fundador, impôs a si próprio uma decisão até ao começo da primavera, porque são mais as despesas do que as receitas e os clientes.

“Os últimos quatro anos foram absolutamente desastrosos. Quando a classe média perdeu poder de compra, aquilo que já era difícil tornou-se insustentável”, confessa em entrevista à agência Lusa no estabelecimento situado no bairro de Benfica. A isso juntou-se o aumento das rendas.

A partir desta semana muitos dos livros vão estar mais baratos, numa derradeira tentativa de reunir as verbas que evitem um encerramento definitivo da livraria. “Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter, diz o proprietário, que mantém o espaço desde 1969, altura em que fundou também a editora Ulmeiro. “Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”.

Há cerca de um ano, José Antunes Ribeiro começou a fazer leilões dos livros através da rede social Facebook, para espevitar as vendas e divulgar a livraria. Mesmo que o Espaço Ulmeiro feche portas, o livreiro promete manter os leilões. “Hei de encontrar um cantinho em qualquer lado, de preferência sem renda, porque foram as rendas que me tramaram”.

Salvador, o "diretor de marketing" da livraria Espaço Ulmeiro. Fotografia: Ana Luísa Alvim. CM Lisboa
Salvador, o “diretor de marketing” da livraria Espaço Ulmeiro. Fotografia: Ana Luísa Alvim. CM Lisboa

O fundador passa grande parte dos dias na livraria, acompanhado da mulher, Lúcia, e de Salvador, um gato de pelo ruivo que se passeia entre livros e dormita na montra. O pequeno felino tem, afinal, um papel determinante. É “o diretor de marketing”, que faz com que muita gente pare na livraria, aberta de segunda a sábado, das 10:00 às 13:00 e das 15:00 às 19:00 horas.

À sua volta estão mais de 200.000 livros e publicações, repartidos por dois pisos. No fundo da livraria, atrás de um muro de livros, José Antunes Ribeiro ocupa-se dos leilões e da gestão do espaço, enquanto Lúcia organiza, põe e dispõe os livros.

Mais de 50 anos dedicados aos livros

O fundador da Ulmeiro nasceu em 1942 numa aldeia perto de Ourém “onde não de lia”, numa casa “onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas [itinerantes] da Fundação Gulbenkian e teve uma professora primária, que teve uma influência enorme, opta por ir para Lisboa para ser livreiro, editor”. A paixão pelos livros levou-o a trabalhar nas edições Itaú e na livraria Obelisco e a fundar a editora Ulmeiro e depois a Assírio & Alvim. Também escreveu para o Diário de Lisboa e para O Tempo e o Modo.

A editora Ulmeiro está praticamente inativa – recentemente foi reeditado o primeiro título, Isto anda tudo ligado, de Eduardo Guerra Carneiro – e a livraria de Benfica foi-se especializando em alfarrabista. O seu acervo é generalista, com especial destaque para os temas de África, Brasil, Infância e juventude, para além de revistas e jornais. .José Antunes Ribeiro recorda, com saudade, os tempos em que se faziam projeções de cinema para crianças, em que havia um clube juvenil “com cartão e tudo”, e sessões de poesia e música. Por lá passaram Agostinho da Silva, editado pela Ulmeiro, José Afonso, Carlos Paredes, António Lobo Antunes.

Uma editora e uma livraria de resistência, no final do Estado Novo, onde foram apreendidos milhares de livros. “Houve as conspiratas”, lembra o proprietário, que esteve ligado a algumas iniciativas dos católicos progressistas. “Assinei o manifesto contra a guerra colonial, pela liberdade de expressão, em 1972”.

No final do Estado Novo, a Ulmeiro escondia livros proibidos pela censura. Fotografia: Ana Luísa Alvim. CM Lisboa
No final do Estado Novo, a Ulmeiro escondia livros proibidos pela censura. Fotografia: Ana Luísa Alvim. CM Lisboa

A PIDE foi “um obstáculo, uma chatice”, mas na altura até se vendiam mais livros, confessa, entre risos. “Havia aquela coisa dos livros que as pessoas sabiam que nós tínhamos. A PIDE nunca descobriu coisas várias. O esconderijo onde tínhamos livros nunca foi descoberto”, garante José Antunes Ribeiro.

O proprietário faz um ‘mea culpa’ sobre as fragilidades financeiras da livraria e recorda várias metamorfoses do negócio livreiro, da própria Ulmeiro e da dinâmica de vida do bairro. “Eu não estou a ver muito bem o dia em que eu desço e afinal não tenho a chave da porta, e afinal a luz está apagada. Vai ser um choque maior para mim. E, para esta avenida [avenida do Uruguai], é uma perda que esta livraria vá por água abaixo”, lamenta.

 

 

 

Com Lusa