Na aldeia do Zé

Fotografia: Tiago Canoso
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Era uma vez um rapaz, de nome José Franco, que amava a sua terra. Vivia em Sobreiro, uma pequena aldeia de Mafra, e trabalhava na cerâmica, como os pais. As peças que fabricava, vendia-as na pequena oficina, de porta sempre aberta à clientela, e em feiras e festas populares. Num dia de 1945, “Zé”, como era conhecido, atreveu-se a sonhar: quis construir um museu, onde pudesse contar a história do seu povo, os seus usos e costumes, como um quadro naturalista, sem pretensões.

Aos 25 anos, com a aldeia gravada na retina, pôs mãos à obra, ou melhor, ao barro, construindo o cenário dos afazeres campestres e as figuras em forma de gente que vivia para o trabalho e que ele tão bem conhecia: o lavrador, o ferreiro, o sapateiro, o alfaiate, o barbeiro-dentista, o pastor e o moleiro, que ia moer o trigo ao moinho de vento, branco e azul, de telhado preto, com imponentes varas e velas de pano triangulares.

A ferraria era lugar sagrado, aonde todos se dirigiam para comprar ou compor utensílios da lavoura – uma sachola, uma foice, uma picareta –, e na oficina do carpinteiro o mais banal pedaço de madeira tinha sempre uso. A azenha fazia do milho farinha, que depois ia ao forno de lenha na cozinha saloia, para fazer o pão de cada dia. Não podia faltar a adega, de pipas atestadas e taberneiro pronto a servir, nem a tradicional capela invocando o Santo António.

Fotografia: Tiago Canoso

José Franco trabalhava ao pormenor. As moradias são cópias fiéis das casas dos arredores de Lisboa dos inícios do século XX. A mercearia, ou “Loja da Ti Lena”, é acolhedora – há uma balança das antigas, daquelas tão grandes que assustam na hora de pesar. Aqui podemos comprar louça de barro e vidrada, comer pão com chouriço, desfazer uma fartura. A casa do lavrador, fê-la com quarto e salinha de estar, e um banco de pedra na entrada para os namorados se sentarem. Na escola, ainda resiste a lousa, escrita e apagada centenas de vezes, ou apenas algumas dezenas, consoante a disposição dos pais de deixarem os filhos ser doutores.

Dentro de um castelo, há outra aldeia, onde as figurinhas de barro fazem casamentos e batizados. Entretidas no parque infantil, as crianças acham graça, sem perceberem muito bem o trabalho que isto deu. Pena que José Franco já não possa contar-lhes – faleceu em 2009.

Do alto da torre, vê-se a Ericeira. O pequeno porto representa a vila de pescadores, que no mundo real fica a apenas cinco quilómetros de distância. Entre miniaturas e espaços em tamanho verdadeiro, quase esquecemos que estamos num autêntico museu etnográfico, melhor do que muitos manuais para conhecer as tradições e maneiras de ser do povo português.

 

Texto: Lino Ramos

Artigo republicado da edição 24 da revista descla, de Novembro de 2014