Professora de Português vence Prémio Nacional Aquilino Ribeiro

Maria da Nazaré Peixinho de Matos venceu a primeira edição do prémio, no valor de 10.000 euros, com “Um olhar sobre o espaço nos contos canónicos de Aquilino Ribeiro”, um ensaio inédito sobre o mestre das "Terras do Demo"

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A investigadora e professora de Português Maria da Nazaré Peixinho de Matos venceu a primeira edição do prémio Aquilino Ribeiro com “Um olhar sobre o espaço nos contos canónicos de Aquilino Ribeiro”, um ensaio inédito sobre o mestre das “Terras do Demo”. O prémio literário, no valor de 10.000 euros, é de âmbito nacional e resulta de um concurso realizado em 2015 sobre obras inéditas de ensaio em torno do universo do escritor, promovido pelo Centro de Estudos Aquilino Ribeiro (CEAR), com o alto patrocínio do município de Viseu.

O trabalho de Maria da Nazaré Peixinho Matos, de 59 anos, destacou-se entre as sete obras a concurso “pela sua estrutura, qualidade de linguagem, rigor de análise à temática e abertura, que possibilita aos leitores uma maior acessibilidade e paixão à obra de Aquilino”, referiu o presidente da Câmara Municipal de Viseu, Almeida Henriques, na sessão pública de entrega do prémio, que decorreu na cidade. “Foi consensual a opção por este trabalho, que se espera que venha a ser editado, depois de reconfigurado para um público mais alargado”, acrescentou o autarca, que presidiu ao júri do prémio.

O ensaio debruça-se sobre uma das componentes fundamentais da obra de Aquilino, a categoria do espaço. “A forma como aborda essa categoria faz com que saia de uma dimensão meramente territorial, física e rural e analise as componentes do espaço social, psicológico, mítico e lendário. Há aqui uma visão muito subliminar da capacidade que Aquilino mostrou na sua obra de reverter uma categoria, embora inspirada pela terra, mas que permite abertura a uma cosmovisão e pluralidade dessa dimensão do espaço, que de facto surpreende”, justificou Almeida Henriques.

A vencedora confessou ser “uma grande honra ficar ligada ao nome deste notável homem de letras”. Para Maria da Nazaré Peixinho de Matos, “o valor educativo, a celebração de uma consciência cívica e ambiental, bem como a dimensão transgressora da obra aquiliniana são desafios estimulantes”. Maria da Nazaré Peixinho de Matos, que leciona Português no ensino básico e secundário em Ílhavo, alertou ainda para a urgência de “resgatar a obra de algumas críticas que a menospreza e que considera Aquilino um escritor quase ilegível”, lamentando que o autor de Quando os lobos uivam ou Terras do Demo esteja “um bocadinho arredado da escola e dos programas”, sendo ele “uma figura maior”, contemporânea de Fernando Pessoa, que é “estudado ao longo de meio ano no 12.º ano”. “Aquilino é uma figura da época e podia dar uma outra perspetiva de Portugal no mesmo período”, reforça.

A ideia é partilhada pelo presidente da Câmara Municipal de Viseu, que confessa ser preciso “desengavetar” a obra de Aquilino Ribeiro, “trazendo-a à luz do dia e para junto das pessoas”. Almeida Henriques manifestou, por isso, a disponibilidade do município em renovar o apoio à reedição do prémio, com vista a promover “a criação literária ficcional em torno do universo e das paisagens de Aquilino e da cidade-região de Viseu”.

O prémio literário era uma aspiração antiga do CEAR, tendo sido instituído em 2000, mas só agora foi organizado através de financiamento municipal.