Javier Cercas vence Correntes d’Escritas

O prémio Casino da Póvoa, no valor de 20.000 euros, distinguiu o romance "As Leis da Fronteira"

Javier Cercas, vencedor do prémio Casino da Póvoa 2016
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O escritor espanhol Javier Cercas venceu esta quarta-feira o prémio Casino da Póvoa, no valor de 20.000 euros, com o romance As Leis da Fronteira, publicado em Portugal pela Assírio & Alvim. O júri do 17º do festival literário Correntes d’Escritas, composto por Carlos Vaz Marques, Helena Vasconcelos, Isabel Pires de Lima, João Rios e José Manuel Fajardo, justificou a decisão, por maioria, com a atenção que o autor presta “às grandes questões da sociedade contemporânea”, como a “inclusão e exclusão social”, a “demarcação de espaços de fronteira” ou “a experiência das margens e da conflitualidade”.

A ata dos jurados destaca ainda a “construção narrativa atenta à polifonia de vozes e aos seus modos distintos de convocação da memória” neste romance, originalmente publicado em 2012, que aborda a Espanha dos primeiros anos de democracia.

Javier Cercas, de 53 anos, é um escritor e tradutor espanhol que conquistou notoriedade internacional após a publicação do romance Soldados de Salamina (2001), editado em Portugal pela Asa. Já depois do agora premiado As Leis da Fronteira, Cercas publicou em 2014 O Impostor.

Os restantes 12 finalistas do prémio, ao qual concorreram 170 obras, eram Cláudia Clemente, Dulce Maria Cardoso, Valter Hugo Mãe, Mário de Carvalho, José Eduardo Agualusa, Luísa Costa Gomes, Valério Romão, Teresa Veiga, Paulo Castilho, Lídia Jorge, o brasileiro Daniel Galera e o cubano Leonardo Padura.

Javier Cercas não assistiu ao anúncio do prémio, mas vai estar na Póvoa de Varzim na sexta-feira à noite para participar numa mesa-redonda subordinada ao tema “O escritor mente, o leitor acredita”.

[aesop_content color=”#ffffff” background=”#616161″ columns=”1″ position=”right” innerposition=”80px” imgrepeat=”no-repeat” floaterposition=”right” floaterdirection=”up”]As Leis da Fronteira No verão de 1978, com Espanha a sair ainda do franquismo e sem ter entrado definitivamente na democracia, quando as fronteiras sociais e morais parecem mais porosas do que nunca, Ignacio Cañas, um adolescente da classe média, conhece por acaso Zarco e Tere, dois delinquentes da sua idade. O encontro mudará para sempre a vida do jovem, que entra para o bando. Três décadas depois, um escritor recolhe material para um livro sobre a vida de Zarco que, nesse meio-tempo, se transformara num mito da delinquência juvenil, retratado em filmes, músicas e livros. O que acaba por encontrar não é a verdade concreta de Zarco, mas uma verdade imprevista e universal, que diz respeito a todos os seres humanos. A narrativa aborda o lado selvagem da transição espanhola, marcado por assaltos e droga, denuncia a desigualdade que, com suas fronteiras mais ou menos visíveis, divide as cidades, aborda o mito da delinquência juvenil, que o autor se propõe a demolir, e critica ferozmente os media que ajudaram a construí-lo. “Através de um relato que não dá um instante de trégua, escondendo a sua extraordinária complexidade sob uma superfície transparente, o romance transforma-se numa pesquisa apaixonada sobre os limites da nossa liberdade, sobre as motivações impenetráveis dos nossos actos e sobre a natureza inapreensível da verdade”, pode ler-se na sinopse do livro, apresentado como “uma impetuosa história de amor e desamor, de enganos e violência, de lealdades e traições, de enigmas por resolver e de vinganças inesperadas”.

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Maria Teresa Forte Fernandes Gonçalves Teixeira, que concorreu com o pseudónimo de Maria Furacão, venceu o Prémio Literário Correntes d’Escritas Papelaria Locus, no valor de 1.000 euros, com o conto A minha vizinha é vizinha de si mesma.

Em relação ao Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’Escritas Porto Editora, o júri decidiu premiar os seguintes trabalhos: 1º lugar: “A magia de Ahmed”, do 4º A, da Escola Básica José Manuel Durão Barroso, de Armamar; 2º lugar: “A árvore da amizade”, do 4º CL2, da Escola Básica de Lama, Barcelos; 3º lugar: “Uma história não acaba, pode nascer outra vez”, do 4º A, da Escola EB1 do Areeiro, Coimbra. Foram, ainda, atribuídas as seguintes menções honrosas: Texto: “Façamos o Mundo Feliz”, do 4º 6, da Escola Básica do Vale do Âncora, Vila Praia de Âncora; Ilustração: “Sebastião. O Lápis Sabichão”, do 4º B, do Colégio Paulo VI, de Gondomar e “Maria Trigueirinha”, do 4º A, da Escola EB1 de Cadilhe, Amorim, Póvoa de Varzim.

O Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha Correntes d’Escritas, no valor de 1.000 euros, foi atribuído a Ardentia, de Nuno Filipe Santos Silva de Azevedo, natural da Póvoa de Varzim, que concorreu com o pseudónimo de Carlos Pessanha.

“O maior evento ibero-americano de literatura”

O ministro da Cultura, João Soares, presente na sessão de abertura do festival literário, manifestou-se satisfeito pela vitória de Javier Cercas, de quem já tinha lido As Leis da Fronteira e está agora a ler O Impostor. O governante elogiou o “trabalho notável” desenvolvido pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim ao longo dos últimos 17 anos, transformando o Correntes d’Escritas no “maior evento ibero-americano de literatura”, e terminou com uma homenagem a Manuela Ribeiro, grande responsável pela organização do festival, a quem atribuiu a Medalha de Mérito do Ministério da Cultura.

Antes da cerimónia, o ministro tinha adiantado que, entre outras razões, foi à Póvoa de Varzim para discutir possíveis apoios aos evento, “para além do dinheiro”. Sem querer concretizar as maneiras nas quais esse apoio poderá traduzir-se, João Soares recordou que “um dos grandes objetivos do ministério da Cultura e do Governo” é o reforço da leitura e lembrou que o primeiro-ministro tem sublinhado “com toda a clareza [que quer] que a Cultura tenha um papel central na afirmação de Portugal, na valorização do seu património em todos os termos, do material e do imaterial e aí o livro, a leitura, as bibliotecas têm um papel muitíssimo importante”.

“Somos o único povo do mundo que escolheu como herói para o seu dia nacional não um guerreiro, não um libertador, não uma data histórica como a tomada da Bastilha para os franceses ou o dia da independência para os norte-americanos, mas um poeta. E um poeta que nasceu pobre e morreu tão pobre que nem sequer deixou dinheiro para poder pagar a mortalha e a quem muitas coisas correram mal na vida”, declarou o ministro da Cultura, realçando que a vida de Camões permite perceber “que o dinheiro não é o mais importante”.

O presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Aires Pereira, agradeceu a participação do ministro da Cultura, afirmando que a sua presença é muito importante e demonstra“o espírito de colaboração e de entendimento” do ministério e do Governo. O autarca agradeceu ao antigo presidente da Câmara Municipal, Macedo Vieira, que em 2000 deu início ao Correntes, a Manuela Ribeiro pela sua dedicação, bem como ao conjunto de pessoas, funcionários da autarquia, que trabalham no evento.

Para Aires Pereira, “a cultura tem óbvio interesse social, é fator de coesão comunitária, é geradora de competitividade. Constrói, define e identifica uma comunidade”. O presidente da Câmara lembrou que, em 2000, “poucos auguravam” a sobrevivência do festival, mas que este, “com a inicial recetividade da cidade e a empatia de imediato criada com os primeiros participantes, logo então se converteu numa festa do livro e da cultura, congregando multidões, criando novos públicos e interagindo, de múltiplas formas, com a cidade e com o meio”.

“O Correntes ganhou, assim e por mérito próprio, a alforria que o libertou dos anos de chumbo da crise financeira, conquistou parcerias que crescentemente o perfilham e suportam, tornando-se progressivamente autossustentável e gerador de recursos para uma economia urbana onde é preponderante a fileira dos serviços associados à hotelaria e à restauração”, sublinhou o autarca.

O vereador da Cultura da Póvoa de Varzim, Luís Diamantino, homenageou ainda o padre e historiador poveiro João Francisco Marques, falecido março de 2015, poucos dias após ter participado na anterior edição do festival, apresentando a obra completa do Padre António Vieira. No final da sessão, foi lançada a revista do Correntes d’Escritas, este ano dedicada ao romancista António Lobo Antunes.

O festival prossegue esta tarde no Cine-Teatro Garrett, com o poeta e ensaísta Tolentino Mendonça a abrir os trabalhos com uma conferência inaugural intitulada O Silêncio dos Livros. Até 27 de fevereiro, mais de 80 escritores de expressão ibérica de 11 países vão estar reunidos na Póvoa de Varzim.