Espetáculo em Viseu propõe novo olhar sobre pintura de Grão Vasco

Quem foi Grão Vasco? Porque pintou o painel de S. Pedro? Era filho de moleiro? Foi discípulo de Rafael? Perguntas que se cruzam na peça de teatro que Miguel Fragata estreia esta quarta-feira e na qual tenta provocar o público

O painel de S. Pedro no Museu Nacional Grão Vasco
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O Teatro Viriato, em Viseu, estreia esta quarta-feira um espetáculo do encenador Miguel Fragata que propõe um novo olhar sobre o painel de S. Pedro, a emblemática pintura de Grão Vasco. Denominada ‘Pedro, Pedra e Grão’, a peça de teatro é apresentada no âmbito das comemorações do centenário da fundação do Museu Nacional Grão Vasco, na sala onde está exposta a pintura a óleo sobre madeira.

Miguel Fragata explica que foi desafiado pelo Teatro Viriato a abordar o painel de S. Pedro, “transmitindo uma nova perspetiva” sobre esta obra com 500 anos que “pudesse também ser um mote para a reflexão”.

Após uma pesquisa para perceber as diferentes perspetivas da História da Arte e da tradição de Viseu em relação à história do pintor Grão Vasco, o autor percebeu que a história da Arte “tem uma série de visões representadas ao longo dos séculos” e a tradição “tem uma série de mitos sobre este homem, a história dele, quem ele teria sido, filho de quem, nascido onde”, refere o encenador.

Miguel Fragata construiu então um espetáculo que começa por celebrar os 100 anos do museu, mas que vai evoluindo com revelações sobre Grão Vasco e a sua obra. “Começa em pontos nada polémicos, muito certos, sobre a história do Grão Vasco, que são os poucos registos que existem, de que ele teria sido casado duas vezes, teria tido duas casas em Viseu e depois, a partir daí, é ‘viajar na maionese'”, neste caso, “viajar na pintura a óleo”, gracejou.

A expectativa é que o público deixe a sala com mais interrogações do que quando chegou. “De facto, há muitas dúvidas em relação ao próprio Grão Vasco, à obra, à origem da obra, mas se olharmos o próprio S. Pedro é um exemplo disso na história bíblica, é aquele que duvida”.

Em cena vai estar também a música Ana Bento, que tem no espetáculo o papel de “uma espécie de trovador” dos tempos modernos, que com as suas cantorias vai incentivando Miguel Fragata a revelar ao público aquilo que era suposto não se saber. Isto porque, “embora ele esteja cheio de vontade de revelar as teorias que tem”, há o constrangimento por não ser “o momento ideal, porque é celebração” e não altura de levantar dúvidas, explicou Ana Bento.

“É a celebração, são os 100 anos do Museu Nacional Grão Vasco e vamos começar agora aqui a levantar dúvidas? Nós fomos contratados para vos animar, não foi para vos por a pensar ou a duvidar”, sublinha Miguel Fragata durante o espetáculo.

“Em última análise, podiam pôr-se a imaginar que pode até nem ter sido o Grão Vasco a pintar este quadro. Ou, pior ainda, que o grande pintor de Viseu pode até nem ser de Viseu”, acrescenta.

No entanto, ao longo da sessão, e entre algumas hesitações, Miguel Fragata vai deixando as suas suspeitas, lembrando que, “na História da Arte, às vezes há enganos”. O espetáculo Pedro, Pedra e Grão’ vai ser apresentado até ao dia 18 de março, estando previstas sessões para grupos escolares dos segundo e terceiro ciclos do ensino básico.