Évora: palco de uma tragédia anunciada

Sofia tem uma “beleza demoníaca, como de uma criança assassina”. O seu modo de ser não encaixa na sociedade fechada de Évora. Alberto vive um processo de interrogação existencial. A história de amor adivinha-se trágica desde o início de "Aparição"

O Templo de Diana, construído pelos romanos no século I. | Fotografia: Lino Ramos
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Sofia era jovem, tinha olhos vivos, mãos brancas e subtis, um “corpo intenso e maleável”. Mas “uma beleza demoníaca, como de uma criança assassina, figurava-lhe nos olhos líquidos, na face branca, na boca ávida e sangrenta”. As palavras são do homem que se apaixonou por ela, Alberto Soares, alter-ego de Vergílio Ferreira no romance Aparição.

O zimbório da Sé Catedral de Évora. | Fotografia: Tiago Canoso

A história decorre em Évora, pequena cidade provinciana e profundamente católica, em plena ditadura fascista. Desde que ali chega para dar aulas no liceu que o protagonista deixa antever que não será fácil a sua relação com a mesma, para mais quando começa a dar lições particulares à jovem, desafiando as “leis” dessa sociedade fechada.

O professor enamora-se por Sofia, provocadora e sensual, cujo amor é feito de entusiasmo, desespero e loucura. Ele próprio, a viver um processo de interrogação existencial, envolve-se com a aluna como se fosse “o último amor de dois condenados”. Um outro jovem, Carolino, fascinado pela morte como forma de criação, era apaixonado por Sofia, tão apaixonado que acaba por assassiná-la a punhal.

Todo o romance é envolto em tristeza, em tragédia. Desde a morte do pai do protagonista, quando a família estava reunida e feliz à mesa, passando pela morte Cristina, criança de sete anos que tocava divinamente o “Nocturno 20”, de Chopin, até ao suicídio do Bailote, um agricultor que perdeu a fonte de rendimento e por isso entende que a sua existência já não tem sentido.

 

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